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domingo, 29 de maio de 2011

Ele Carregava Cacos

Ele carregava cacos,
Vermelhos como pétalas de rosas,
Vermelhos como sangue,
Escarlate gritante na calada da noite.

Ele carregava cacos
Que, quando ele respirava,
Flutuavam dentro de sua caixa torácica,
Cortando-o, dilacerando-o internamente
Em brutal agonia.

Ele carregava cacos,
E um dia ousou retira-los.
Empunhou-se de um alicate e uma faca
Para tornar sua inóspita caixa torácica
Algo além disso.

Ele removeu seus cacos,
Deixando vazia sua caixa torácica.
Esta, de tão torturada, de tão dilacerada,
Já não conseguiu acolher mais ninguém.

domingo, 1 de maio de 2011

Nossos Cacos

Todo nosso caso de acasos
Deveria ser banhado por lágrimas e risos,
Beijos e abraços submissos
A essa coisa estranha que chamam de destino,
E não narrados pelos carros que nos atropelaram,

Nem pelos cacos de vidro
Que nossas faces percorreram e cortaram
Ao desintegrar-se da vidraça da alma.

Faltou aquela melodia daquele violão velho.
Aquele pedido absorto atingindo a superfície,
Aquele sorriso torto fugindo
Da esquisitice de ser sincero.

Faltou o grito das estrelas,
A iluminação da estréia de nosso espetáculo,
De quando as trajetórias de nossos lábios
Se encontraram no primeiro ato.

Faltaram os cacos dos corações dilacerados
Se consolando no ventre da noite;
O gesto da carícia empática
Que há entre os desamparados.

Faltou realidade, faltou sonho...
Faltou o primeiro momento teu,
Momento meu de quando eu criei
Um mosaico com todos nossos cacos.

Sim...
Faltou o primeiro momento que se dissolveu,
Que o tempo rompeu,
Noite que amanheceu,
Sonho que se acordou,
A única lágrima brilhosa que escorreu.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Luto (Amor Perdido)

As tardes vazias sem tua presença
Sem o doce olhar teu sob o meu.
As lembranças de tuas carícias
Pungem cruelmente meu ser.

Cartas engavetadas, retratos desatuais
Provas concretas da beleza
De nossa doce e harmoniosa união,
Hoje me confortam. Me escorrem lágrimas
[bipolares

Eu, romântico patético
Padeço diante da carência de ti.
Meu corpo sente falta do teu
Meu tato clama, desesperadamente pelo
[teu toque.

Meus olhos chamam por teu sorriso.
Meus ouvidos imploram
Pelo doce e carinhoso som
Da melodia de tua voz.

O peso de tua ausência,
Tão atroz carrasco de minha realidade,
Tinge minha existência
De irrelevância, de languidez.

Jaz o silêncio a deflagrar.
Jazem os ecos deste cômodo vazio,
Carregado de intensa emoção.
Jaz uma lacuna não preenchida.

Acabrunhante e agoniado, velo dilacerado
Num funeral de sentimento.
Na desgraça patética da lamúria
De um apaixonado enlutado.

E sigo perdido,
Num caminhar ferido,
Rumo ao horizonte
Por esta estrada lacrimosa.

E sigo, exaurido,
No gotejar de ilusões perdidas,
De passo inconstante
Por esta estrada desventurosa.

Minhas lágrimas marcam o caminho.
Minhas cicatrizes são minhas armas.
Minha escolha é o sofrimento.
Minha escolha é a única que restou.

sábado, 11 de setembro de 2010

Sou poeta

Eu sou um poeta que reaprendeu
A arte de amar, de esculpir a emoção.
Aprendi a viver, a enfrentar
Ilusões da doce e atroz existência.

Sou poeta e também aprendi a morrer.
Aprendi a me afogar dentre oceanos de lágrimas
E decadência soturna
E também aprendi a apreciar o brilho do arco-íris
Ao ver o dia nascer.

Aprendi solitário a transformar vísceras
E risos, gritos e suspiros
Em palavras e estrofes
Que enfeitam os olhares
Que distribuem carinhos
De amor e solidariedade

Solitário e patético,
Melancólico e alegre,
Aprendi a deixar as folhas cair
E as flores florescer
Que o amor,a dor, a angústia e o prazer
Fazendo parte da arte de existir.
Aprendi que é poeta quem quer ser!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Morte Romântica

Eu gostaria de morrer
Neste exato momento
Para que o amor que sinto por você
Não fosse atingido pelas dores
[Do destino

Gostaria de morrer contigo
E levar-te junto a mim
A minha infame-soturna tumba
E descansar pela eternidade
[Junto de ti

Pois um amor vivido
É um amor que tende a torturar
Que tende a se acabar.

E um amor assassinado, suicida
Conclui-se em plenitude
Na glória de um momento.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Trajetória Emocional (gênese e óbito de um romance)

No dia em que nasci,
Numa doce tarde de Novembro.
Eu, fruto de seu jovial olhar
Tive minha primeira concepção de vida.

Nasci livre em um sufocamento
De uma circunstância proibida.
Como se dar sentido a existência
Fosse um pecado capital.

Vivi clandestinamente junto de ti
Em promessas e sonhos
E tentativas lógicas
De evitar o inevitável.

E fui arrancado de minha vida,
Arremessado em uma prisão dogmática.
Os dias se tornaram meses...
Os meses se tornaram anos...

No romper da escuridão
Em epifania, um anjo dá
Gênese a esperança e
Ressuscita-me em glória.

Volto aos teus braços
E construo nosso sonho.
Transformo o abstrato
No tangível.

Junto minha vida a tua.
Nós, vítimas de nós mesmos
A desfrutar em harmonia
De nosso insólito desejo.

Nasce o fruto de nosso romance.
Morre o anjo de nossa esperança.
A existência se transmuta.
A confiança se dilacera.

Um olhar detrás das cortinas
Revela a obscuridade grotesca.
Sou exposto como palhaço nu
À platéia da humanidade.

E assisto o fruto já-não-meu
De um romance apunhalado
Crescer e se tornar
Um fantasma do passado.

Dilacero-me, esfacelo-me
E apenas me resta o desejo
De te ver e lhe fazer
Se afogar neste mar adúltero de desilusão.

Romanticida

A doce e cruel mania lírica
De idealizar constantemente
O desejo de forma onírica
Na frágil psique de um romântico.

Apenas ilusões carinhosas
De um doce devaneio.
Frutos rubros e amistosos
De um poeta absoleto.

E como em qualquer ilusão,
Sempre haverá o choque
Contra a parede insólita da realidade.
A gênese do dilacerar da emoção.

A sôfrega alma do romântico poeta
Implora pelo fim de sua dor:
Por favor, apenas desejo um romanticida
Para acabar com meu amor.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Idiotização Romantica

Calo-me, me abstraio no azeviche de minha mente.
Alieno-me com conteúdos falsos,
Correndo de meus pensamentos sensatos
Que se esbarram na insolitez de meu sentimento.

Esfaqueio-me, dilacero-me
Forjando memórias que eu não possuo.
Corto os pulsos de minha alma
E engulo frascos e frascos
De anestesia alienante.

Esqueço, ou pelomenos
Tento fingir o esquecimento.
E escrevo em sangue
Vômitos emocionais.

Meu sacrifício emocional
É logicamente insensato.
Assim como é irracionalmente sensato
Diante da insensatez de uma emoção.

Dilacero-me no tempo
De ponteiros de relógios antigos.
Quebrados, perdidos
Por motivos claros e dignos.

Quebro os espelhos do reflexo
De minha mente.
Este hábil carrasco
De meu coração.

Quebro-me a pedradas
Em contusões profundas
Pois este mundo
Não foi feito para loucos apaixonados
Como eu.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Lágrima Brilhosa

Nossa bela harmonia
Regada de graça e irresponsabilidade.
Nesta tão bela noite fria
Teu sorriso me ilumina na escuridão.

Tua face ebúrnea, tão linda
E teu astucioso olhar
Me enfeitiçam, me alegram,
Me levam para longe daqui...

Longe, onde nada possa nos importunar.
Longe de tudo, de todos
Onde possamos estar
Enfim em paz, enfim a sós.

Livres para deleitar
De nosso tão agradável
Diálogo poético,
Pois tu, para mim
És uma bela poetisa.

E eu, livre, para deleitar de teu tão doce beijo,
No fechar de meus olhares...
E ao abri-los, surpreender-me alegremente
Ao apreciar tua tão bela face.

Surpreender-me por estar ao teu lado,
Desvendando teu doce beijo,
Na harmoniosa atração de nossos corpos.
O desfrutar de nosso proibido desejo.

E o prazer de entrelaçar
Teus braços aos meus,
De acariciar o castanho macio
De teus fios de cabelo.

Nosso romance vampiresco
Entre mordidas e risos
Faz o florescer em meu ser
A alegria que eu havia esquecido.

Livres em nossa longa noite isolada
Como envoltos em uma esplêndida fantasia.
E quem diria,
Em uma noite sem expectativa
De grandeza pressentida
Surgiria a beleza improvável de nosso romance?

E, subitamente, o quebrar de nossa fantasia.
Você é lavada para longe, de volta.
E eu remanesço aqui nesta noite fria.
Em um despedir frio e oprimido
Teus olhos transmitem preocupação aos meus.

Tu vais, e deixas a esperança de que
Este não seja o último capítulo
De nosso tão gracioso romance.

E deitarei ao meu leito nesta manhã
Com meus olhos ansiosos sob ti.
Nostálgico em minha recente memória
Da doce beleza de tua lágrima brilhosa.

[26/02/2010]

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Lamúria

Eu só consigo escrever sobre ti.
Só consigo expressar esta única emoção
Que talvez não tenha valido a pena.

Minto! È óbvio que valeu a pena!
Toda a intensidade de nós...
E hoje resta a ausência...

E eu, em meu lamento comum e clichê,
Em meu patético estado
Em meu estado lastimável.

Em minha lamúria incansável
Diante da lápide de nossa arte
Perdida com as areias do tempo.

Eu lamento, pois parece que
Não existe mais nada a dizer
Nada a fazer.

Eu lamento meu fim,
Lamento seu novo início sublime
Seu novo início sem mim.

Lamento, pois é tudo que sei fazer.
Lamento em uma poesia sem título,
Sem cor e sem sentido.

Lamento, somente
Pois é tudo que sei fazer
Em minhas lágrimas imbecis.

Lamento, somente
Pois já não tenho mais
Palavras em meu repertório
A declarar, a dizer.

Lamento, simplesmente,
Só, como sempre
Lamento, somente
Pois é tudo que posso fazer.

Nós

Me diga quantos dias e quantas noites
Eu hei de esperar.
Me diga quantos Sois e quantas Luas
Por minhas retinas dilaceradas
Haverão de passar.

E esperar de mãos atadas
Amordaçado sob o luar.
Meu coração esmagado
Espera pela possibilidade de estar
Mais uma vez presente
Onde você estará.

Surgiu como um simples sonho
Do qual eu jamais quis acordar.
Súbito e cheio de magia
Como teu doce castanho olhar.

E evanesceu em um trágico
E lastimável acordar.
Trazendo-me de volta
Ao vazio de existir.

Que maldita trajetória o destino traçou
Sob nós, meros amantes.
Que conhecemos juntos, em poucos dias,
A beleza do paraíso
E o escarlate do inferno.

E hoje apenas me resta utilizar
De minha frágil, porém prezada memória
Para relembrar mais uma vez
De como nossa alegria e nosso romance
Que foi tão belo e poético, mais uma vez.

E além de toda miséria,
Da dor que proporciona o vazio
Da noite sem tua voz,
Eu jamais poderei dizer
Que nossa melodia se desfez.

Pois eu nunca deixarei que morras
Dentro de mim.
E meu interno, doente e saudável
Por nosso romance,
Jamais esquecerá o significado de ti.

Estarás dentro de mim
Em todas as manhãs exauridas
De minha insônia.

Em todas as noites frias e claras,
Em todos os ventos uivantes
Que soprarem em minha face.

Estará como o Sol e a Lua
Inerente a minha existência
Que um dia, ao seu lado
Tomou forma de vida.

Nossa melodia ressoará pela eternidade
E tu estarás viva ao meu lado,
Estarás ao meu lado, como sempre esteve
Minha amiga, Minha Musa
Minha Amante
Meu Amor.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Promessa

Plantarei nosso sentimento
Como uma pequena semente
Simples e frágil
Dentro de meu dilacerado coração.

E o regarei com a esperança
De que um dia poderemos estar
Juntos novamente
Mesmo que isso seja apenas
O fruto de uma doce ilusão

E enquanto eu respirar
Enquanto meu coração pulsar
Enquanto o Sol nascer
E a Lua iluminar.

Guardarei e cultivarei
Nosso digno sentimento
Na memória daquele dia
Daquela noite.

E seu sorriso
Sempre iluminará
Minhas manhãs de insônia.

E seu olhar
Sempre me trará alegria
Na tristeza de tua ausência.

E eu sempre lembrarei
De seu doce abraço
De seus carinhos
E de sua preciosa presença
Ao meu lado.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A doença do patético

O patetismo de meus atos
Não me envergonha nem me humilha
Sou apenas um patético romântico
Em busca de uma cura ou uma anestesia
De minha insalubre e melancólica existência.

Românticos são patéticos,
Pois sentimentos também são.
Pois estar vulnerável a desilusão e decepção
É simplesmente patético.

Mas a pateticidade é humana
Pois só os patéticos vulneráveis
Que provaram do azedume da dor
Podem ser vítimas da alegria.

Sou apenas uma vítima impulsiva
Uma alma torturada
Uma criatura ridícula e vencida
Diante de um jogo sentimental.

Pois o preço da alegria
É a trágica tristeza
E a infelicidade se torna tangível
A felicidade se torna utopia.

A dor e o sofrimento são apenas constantes
Alegria é apenas uma droga rara
Um entorpecente caro
Uma morfina.

E o preço de tal anestesia
É o sangue derramado
Das veias laceradas
Da dor do patético.

A cura é apenas uma utopia
Somos apenas vítimas
Da patologia quase extinta
Da doença do patético.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Sonho sem sono

Surgiu, súbito e intenso
De uma improbabilidade doce.
Surgiu entre diálogos intelectuais
E doces risos.
De confiança e carinho
Humanidade e preocupação.

Por um momento tão digno
Não planejado e voraz.
Rendemo-nos ao destino
Sem preocupações, sem dramas.

Rendemo-nos a nós
Num sublime espetáculo.
Somos protagonistas
De um romance em clímax.

De tanta insegurança
Gestos ingênuos e óbvios.
De tamanha compatibilidade
Intensa paixão insólita.

Como se a impossibilidade
Nada significasse
Diante da intensidade
Do ocorrer de nosso momento.

E atuamos, como dignos protagonistas
Em nosso espetáculo sem roteiro.
No impetuoso improviso
Da avassaladora intenção de nós.

Nossos corpos compreensivos
Exalam pelos poros
A doce e leve melodia
Da epifania de nossa união

A harmonia em nossos olhares
De um contemplar de nossos rostos
Atados por nossos braços
Na égide carinhosa de nosso abraço.

No evitar de pensamentos
De preocupações futuras
Irrelevantes diante de nós
Pois foi unicamente relevante nosso momento.

Surgiu, súbito e doce
Como um simples sonho sem sono
Na música atemporal
Da união de nós.

Surgiu, improvável e vivaz
Como um doce sonho sem sono
Na realidade inacreditável
Em felicidade e harmonia.

E evanesceu como teu perfume
Em tua pele branca e macia.
E evanesceu ao amanhecer
De nosso alegre e melancólico terceiro dia.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Noiteadores

Deixando pelas ruas
Seus rastros de decadência
Fazendo das noites tão absurdas
Expondo ações julgadas como indecência

Donos da noite, malditos por opção
Excluídos, românticos em putrefação
Alucinados, excitados, infames sem razão
Bucólicos e melancólicos perdidos na escuridão

Vândalos acabrunhantes sem religião
Infectados por terror e agonia
Em seus momentos de solidão

Artistas carentes de razão
Estes são os Noiteadores
Inspirados somente pela emoção

O conflito diante do romance incompreensível

E depois de muitas noites mal dormidas. De dias pensando na mesma pessoa, que me enfeitiçara com tamanha eficácia a ponto de me fazer deixar de pensar em situações alheias, fatos cotidianos, argumentos, filosofias...
Enfeitiçara-me a ponto de excluir de minha mente todos os conhecimentos de adquirira através de minha experiência de infame vivencia miserável.

Surgiu motivação, esperança por este romance, pois todo início de romance sempre traz aquela sensação insólita de alegria débil, de sorrisos espontâneos e olhares em devaneio. Surgiu esperança de completar o vazio que se manteve a me consumir num ato voraz e vil.
Falsa esperança eu diria. Tão comum falsa esperança, da qual todos um dia já provaram.
A falsa esperança de encontrar em algum ser alheio a solução de suas mágoas. O preencher da lacuna tediosa e voraz de seu tragicômico cotidiano.

Tudo que o ser humano procura. Completar a si mesmo. Plenitude. O ato mais imbecil que o ser humano pode cometer, e comete,
é o de ter a falsa esperança de encontrar em outro ser humano (tão vazio quanto este mesmo) o preencher desta tão lúgubre circunstância comum.

Estava a vivenciar, novamente, esta falsa esperança, mas de uma forma diferente. Esta pessoa conseguira tirar todo conhecimento, toda a auto-preservação de sua mente. Tornou-se um sentimento desesperado e, logo, uma gafe.
A sensibilidade do ser diante desta situação incomum, portanto desesperadora, realmente preenchera este vazio, mas não da forma tão plena que se deseja. Apenas substituíra o sofrimento do vazio pelo sofrimento de um amor platônico.

Por tamanho desespero que sofrera por causa deste sentimento em sua intensidade toda, não conseguia preservar a si próprio, nem respeitar a si próprio, e muito menos pensar em si próprio.
E por estas circunstâncias, fora tomado, completamente, pelo sentimento constrangedor da insegurança. Por insegurança, que resultou em sua falta de atitude, em seu nervosismo, e por fim, em seu trágico sofrimento. Esta a justificativa do sofrimento de um amor platônico: a insegurança, que resulta na falta de atitude, e assim na impossibilidade de vivenciar tal sentimento, já que impossível declará-lo.

Mantive-me em sofrimento, por horas, dias, semanas... A terrível sensação de inaptidão me fizera pensar na incapabilidade, considerando os argumentos internos e externos diante dessa situação emocional masoquista.
O sofrimento agoniado, e sem possibilidade de mudança. Tão terrível sombra diante de teu ser, que o impedia de dormir ou acordar, que o impedia de pensar, que o fizera chorar por este tão vasto período cruel.
Era praticamente atroz sofrer desta forma. Porém, preferia sofrer agoniadamente, sem sua segurança, sem voz, por este romance de uma só parte, do que sofrer pelo vazio, que o consumira aos poucos durante os anos, subtraindo cada vez mais seu precioso sentimento de si.

Aceitava ser o romântico que era, e apreciava muito o sentimento que é amar. Até como a maior dor que um triste ser obtém através do mesmo.
Dilacerando a si mesmo, lenta e dolorosamente. Não havia outro pensamento em sua tão cega mente.
Mantinha sonhos, lembranças sobre esse amor. Fechava os olhos, e podia vê-la tão claramente a ponto de considerar a possibilidade de tocá-la.
Sonhos e lembranças que o pungiam ainda mais, de forma ainda mais cruel.
Tudo relacionado a romance passou a torturá-lo. A imagem de um casal o fazia pensar na possibilidade de estar acompanhado por sua amada, e, logo, o fazia lembrar a impossibilidade e da realidade que vivia.
Escrevia poesias, prosas, crônicas, pensamentos, sonetos, todos sobre este romance. Todo seu conhecimento literário, toda sua produção artística se voltara a ela.

Perdia-se em si mesmo, conflitando sua (agora tão prejudicada) racionalidade com sua sensibilidade. Estava atordoado, confuso, ausente. Seus sonhos tomaram conta de seu pensamento, suas fantasias substituíram suas teorias, e seu obsessivo romance substituía sua filosofia.
O preencher de seu vazio o pungia. O vazio em si, também o dilacerava. Não encontrara solução alguma para nada, já não conseguia pensar.
Tornara-se atroz, um animal romântico incapaz de raciocinar.
Essa metamorfose acontecia dentro de si imperceptivelmente.

Certa manhã, já desumanizado, sofreu uma overdose deste sentimento.
Desumanizado, desanimalizado, convertera-se em nada.
Um objeto inerte a toda situação que vivera interna e externamente.
Um corpo sem mente, desalmado, frio e sem vida.

Manteve-se desta forma por alguns minutos e logo regressou a si.
Voltou a ser, realmente. Pensava com normalidade, suas filosofias jogavam em sua face o quanto se tornou ocioso.
Não sentia mais a intensidade romântica que sentira, porém não deixara de ser um romântico.
Assim como a intensidade, a insegurança também evanesceu subitamente. Porém, não deixou de amar, apenas deixou de ser o masoquista que era antes.

Estranhamente, o vazio também não estava presente nesse momento de epifania.
Encontrara o equilíbrio de si mesmo, depois de tantas descargas emocionais, tantas lágrimas desesperadas, encontrara seu eixo.
E somente neste momento de epifania, soube que ainda poderia seguir em frente e lutar pelo que sentia. Pois agora havia segurança em si, e somente agora deixaria de conflitar consigo mesmo, e passaria a conflitar com o externo de sua infame vivência ao invés de conflitar consigo mesmo.
Compreendera o significado de "completo". Compreendeu, novamente, que somente ele mesmo poderia completar a si.
Porém, não deixara de ser o romântico que é, muito menos deixara de amar, ainda esta mesma pessoa.
E seguiu em frente, sem se importar com o sucesso ou com o fracasso.