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terça-feira, 20 de março de 2012

O Naufrágio de Uma Noite (Ósculos Ácidos Artificiais)

Todas as garrafas estavam no chão, acompanhadas de um oceano de bitucas de cigarro e cinzas... Todos boiavam naquela superfície de águas de prazer artificial, de olhos fechados e rostos distorcidos – sendo impossível descrever o que sentiam – perdidos em proa num náufrago decadente.
O cargueiro que carregava todas aquelas mercadorias sem-valor fora atacado por uma tempestade insólita de vinho, conhaque e cerveja. Chovia intensamente, as nuvens eram moldadas pela fumaça tragada por piratas que dançavam com sereias cruéis e sedutoras.
Corpos boiavam amortecidos, dormentes... Copos vazios encaravam dementes... Pensavam em se mover, porém não conseguiam... Pensavam em nadar, pensavam em se afogar, pensavam em atingir o fundo do mar... Pensavam em pensar... Era inútil tentar voar sem asas, nadar sem respirar.
A alegria havia deixado o convés. Mal se sabe como ou por onde, afinal, ela não sabia nadar, não sabia voar, muito menos remar num bote salva-vidas. A alegria era débil, deficiente, deformada e impotente. Era uma adicta às tempestades ébrias que banhavam poesias pobres de poetas podres...
(...)
Havia amanhecido. Remanesciam todos, como páginas de poema que perdeu a tinta, molhadas, prestes a se desfazer. Apoiavam-se nos pedaços de madeira daquele grande e belo navio insensato. Oh! Aquele grande e belo navio insensato! Ele navegava pelas mais belas ondas tempestuosas com tanta graça, com tanto clamor às coisas meramente escondidas dentro de cada ser desgraçado pela graça de existir!
Era como se uma viajem fosse resolver ou dissolver todos os dilemas, todas as situações e problemas da existência tácita e ebúrnea. Como um avião a jato comprado, carregando todo tipo de objetivação existente como combustível, voando e nadando quimicamente, sem que houvesse o menor sentido para leis da natureza e todas as ciências que aqueles passageiros embarcados nunca iriam – e nem queriam – compreender.
Existiam suas ilusões, assim se confundiam passageiros com a gasolina que não era nada – nada! – convencional.
Queimavam-se, consumiam-se, pouco a pouco, até não restar nada além de cinzas e fumaça.
Tinham esperança enquanto se encontravam a navegar, a voar... Tinham um destino que nunca pretendiam alcançar - o destino pouco importava -. O prazer estava no caminho destas ondas líricas e não na ilha do suposto tesouro vigente. O sonho lúcido se desfazia enquanto a mente acordada corria e corria e corria, o corpo morto e morno se debatia, as pupilas dilatadas amanheciam.
E o calor queimava atroz o olho vil. Eram pessoas tortas, tortuosas, torturadas... Almas penadas dando socos na rotina. Errantes e impossíveis tentavam se libertar de seculares dicotomias. Eram inóspitos vivendo pedaços de céu num inferno ensolarado.
Beijavam a morte pouco a pouco em preliminares. Ósculos ácidos artificiais.
Tudo que havia era celebrar a vida e beber caixões. Cultuadores da morte e da vida, e não queriam dormir... Pois não queriam acordar.
- Pois não havia cura para realidade demais. Não havia cura para esta coisa vivaz que era a melancolia. Não havia tanta esperança de paz nos beijos das ondinas.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O Câncer Do Vazio

- Bla bla bla, e todas coisas mais que você diz sobre si mesma, não passam de outdoor mal-colado na avenida, de pixação rústica no muro sujo da rua escura...
- Largue de ser cínico e hipócrita Poeta Ébrio, tu sabes que o único decadente aqui é você!
- Eu que sou o decadente, Musa!? Não sou eu o robotizado, a maquininha de caixa-eletrônico que expele notinhas pelas partes baixas! Não sou eu a engrenagem, lubrificada pelas cabeças de cima da nuvem, rodando sem parar neste organismo grotesco de suor e sangue!!!...
- Não comeces o discurso piegas e seu blábláblá bêbado-surreal nesta salada de críticas metafóricas que usas como argumento no diálogo unilateral. Tuas lânguidas e porosas falácias são apenas folhas secas que passam pelo meu fronte no outono: Ou nem sequer me atingem, ou são simplesmente pisadas pelo meu sapato.
Poeta Ébrio aponta para a face de Musa com seu júpiter furioso
- Tu és cega pelas mesmas configurações e condicionamentos que mecanicamente responde e ganha um biscoitinho, como uma cadela adestrada!
Julgas “diálogo unilateral” a língua do poeta que tu não entendes – e jamais entenderá – se não libertares a poesia estagnada, na cela enferrujada, do peito exasperado!
O silêncio envenena o ambiente, ambos sufocam suas línguas com a epidemia venenosa dos ecos de cada pequeno som diante do vácuo. Musa fita o céu cinza da noite urbana, através da lente suja, com um olhar de cólera em síntese com seu corpo rijo e tenso. Acende um cigarro aos tremeres inconscientes, e guina teu olhar infectado pela mais pura ira que um dia Poeta Ébrio já vira:
- Tu jamais entenderás o que é o determinismo, cretino-como-câncer, de um bando de cabeças mecânicas-em-vácuo que te estupram desde a infância com suas imagens vazias, cheias de pretensões e terceiras-intenções, de fetichismo da existência!
Poeta Ébrio se levanta da cadeira cheia de formigas e infectada pela ansiedade oca de tremeres, caminha mancamente pela sala, em disfarce de adolescente chegando bêbado em casa às cinco horas da madrugada. Seus olhos se esbugalham com o comentário de Musa, porém, ainda sim, a observa com um olhar soberbo, como se Musa fosse apenas mais uma ovelha desgarrada aprendendo a andar sem um pastor. Pretendia ajuda-la se não fosse cega-surda-tagarela.
Musa inconteve o silêncio e continuou o falar exasperado, soltando todos seus demônios recônditos encima de Poeta Ébrio:
- Minha mente é uma cabeça matastaseada com o câncer do vazio! O fetiche condicionado consome apenas lixo enfeitado, eufemismos de realidade! Não tenho um filtro que separe o entulho do extulho, nem o lixo do luxo!
Poeta Ébrio agora se inconforma,vê em Musa um espelho partido, sujo pelas poeiras do existir, vê teu passado gritando: “Tu jamais atingirás tua obra, Poeta-Pateta na contramão!”.
Exaspera teu grito de sermão libertador:
- Tu não tens filtro?! Tu apenas observas pelas lentes! Apenas olha pelas lentes opacas, trincadas, machadas e distorcidas pelo padrão! Teu erro é observar por lentes!
Pare de procurar caminhos e crie estradas! Pare de lamentar tua infecção pela configuração, tu não és a única! Pare de observar por lentes, seja a lente!
O Poeta bate a mão esmagadora sobre a mesa e fita Musa com o olhar desconcertado. Esta olha para os próprios sapatos e, em conflito existencial pleno, observa seu pé se mexendo histericamente.
Ele olha as horas no relógio, se aproxima da porta do apartamento, seus passos ecoam caminhando pelo silêncio, observa Musa tremer enquanto seus olhares abrem e fecham e seu rosto se rubora:
- Sabe qual é o silêncio mais cruel que existe? O da madrugada, pois este poderia simplesmente não existir se estivesse no lugar no certo, na hora oportuna e libertadora, quando as luzes se apagam e os loucos não precisam usar máscaras.
Não há mais nada a se dizer neste cômodo oco.
O Poeta Ébrio abre a porta, dá seu primeiro passo de fim-de-noite, e bate a porta do apartamento de Musa, como se se despedisse com o barulho ecoante de sua inconformação decepcionada da madeira barata batendo no estalar do portal daquele universo que julgava pobre.
Musa chora durante duas horas até desmaiar de sono e tensão enquanto Poeta Ébrio desmaia em uma calçada no centro da cidade.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Uma Forja de Memento

A manhã raiou impiedosa, rompendo com o frio furioso da madrugada. Os ventos se acalmaram, as lágrimas pararam de cair. Efêmero levantou-se de sua cama, lavou o rosto, ligou o aparelho de som e escutou uma música qualquer.
Acendeu um cigarro, colocou algumas roupas e parou diante da janela, em devaneio:
- O que há de estático nesta existência? Nem os dias são os mesmos, nem as nuvens são as mesmas... Há dias de humores tépidos, gélidos ou incendiários, como nós criaturas passadas... As mesmas águas não hão de correr os mesmos rios, nem as mesmas lágrimas hão de cair dos mesmos olhos, nem as dores serão as mesmas dos corações dilacerados...
Tragava pesadamente seu cigarro enquanto fitava o dançar das nuvens diante do vento da manhã. Estava praticamente como uma estátua-viva viciada em nicotina.
Levou o cigarro a sua frente, e falou sozinho com um sorriso no rosto:
- Jamais serão as mesmas fumaças dos mesmos cigarros, nem os mesmos sabores das mesmas bebidas que bebemos até não sentirmos seus sabores...
Afogou o cigarro no cinzeiro.
Ouviu alguém bater em sua porta enquanto escovava os dentes. Gritou para que entrasse. Ouviu os passos irem até o pequeno quarto e nenhuma palavra.
Terminou sua higiene bucal e foi até o quarto. Era Musa que se sentava em sua cama olhando-o com um olhar insano esboçado em sua face ebúrnea de sorriso infante.
Ela segurava uma garrafa de vinho e parecia não ter dormido ainda.
Disse, com um sorriso:
- Fiquei pensando em quem tomaria vinho comigo às sete da manhã.
A face de Musa esboçava um nítido sorriso falso, ao vê-la, Efêmero não sabia se iria rir ou chorar. Pegou a garrafa de vinho e disse:
- Você não dormiu ainda. Você acordada uma hora dessas é algo intransponível.
Musa sorriu bebadamente:
- Hah, como você é observador. Só vim fazer um último gesto, e você é o único acordado agora.
- Ultimo gesto? Do que você está falando afinal de contas?
- Eu vim me despedir.

Efêmero levou uma guinada, e não soube por quê. Musa era apenas mais uma colega com a qual conversava nos corredores da faculdade, ou que bebia e cantava nos luais ocorrentes. Não era de fato alguém que lembraria afinal de contas.
Porém, foi afetado, de fato, pela notícia. Deu um gole na garrafa de vinho e perguntou:
- Mas o que houve? Porque você vai embora assim tão de repente? Vai desistir de tudo antes de começar?

Musa retorceu seu sorriso, como se partisse de comédia a tragédia em menos de um segundo. Engoliu parte da garrafa, acendeu um cigarro e disse:
- Sabe que é engraçado. Agora que irei deixar todo este destino para trás, sei realmente como as coisas nada são senão vários capítulos de um livro. Duram por um tempo, e quando menos esperamos, acabam. Para que a história continue, precisamos passar para o próximo, sem ter dó de virar páginas e deixar para trás os cenários e personagens que tanto amamos.
- Mas porque você vai desistir agora? Ainda temos tanta coisa pela frente, tantos momentos para viver aqui, tanto conhecimento para adquirir, tanto a chorar, tanto a rir!
Porque vai desistir do seu sonho assim?
Efêmero não acreditou em suas palavras, que tão emocionadas, porém, não pareciam tocar Musa, que agora mostrava um sorriso sereno enquanto olhava para janela do quarto, vendo o azul se estabelecer.
Musa respondeu:
- Já realizei meu sonho, agora preciso realizar outros. Ainda tem muita coisa nesse mundo que quero conhecer, muitas músicas e poemas diferentes, cantados e declamados por diversos intérpretes diferentes. Quero ver tanta coisa que ainda não conheço, que preciso ficar em mais de um lugar ao mesmo tempo!
O silêncio tomou o ambiente. Efêmero notou que não conseguiria convencer Musa, eram parecidos neste aspecto. Ambos observavam pela janela o Sol subir cada vez mais no horizonte. Este momento foi o momento mais próximo que estiveram juntos, dentro de todo aquele cotidiano, de todas as vezes, que se viram, durante todos os dias. Ambos sorriam e olhavam para o mesmo céu simultaneamente.
Efêmero sentou-se ao lado de Musa, que afogava seu cigarro no cinzeiro, olhou para o teto e disse:
- Sabe, acho que eu jamais me lembraria de ti se não fosse por este momento. Agora acho que jamais me esquecerei deste momento. Que jamais tomarei vinho de manhã mais uma vez sem lembrar-te, que jamais me esquecerei da maneira louca que você cantava nos luais depois de várias doses de vodka.
- Por isso um último gesto, para levar comigo um gesto de alguém, de você, pra que eu me lembre de tudo de belo que vivi durante estes poucos meses por aqui. Um último rosto, um ultimo sorriso pra associar a todos que vi sorrir, a tudo que fez sorrir enquanto estive nesse sonho.

Olhavam-se com empatia, como se começassem a apaixonar-se. Aquele momento expressou a sensação de acolhimento, de compreensão que ambos procuravam. Pois a única conclusão é a de que tudo que queremos é alguém próximo de nós no final dos ciclos.
Alguém, não importa exatamente quem, mas alguém para carregar uma memória e deixar uma em seu lugar.
Efêmero nunca havia sentido aquela espécie de emoção por alguém antes. Era como se o universo se desconstruísse e a ilusão fizesse mais sentido que a realidade. Olhando pela janela, disse:
- Nem os dias são os mesmos, nem as nuvens são as mesmas...
Musa respondeu:
- E os beijos mais belos são aqueles que não aconteceram.
- Como assim? Indagou Efêmero.
- Os beijos mais belos são aqueles que não aconteceram, por isso não irei beijar teus lábios nesta manhã. Por isso jamais provarás meus lábios, para que se lembre a tentação de tê-los enquanto lembro a tentação dos teus.
- Você jamais irá possuir meus lábios, e eu jamais os teus. Com isso, jamais me esquecerei de ti.
Efêmero estava estático, não sabia como reagir a tal situação.
Musa riu, deu um beijo tranqüilo na testa de Efêmero e disse com um sorriso:
- Adeus.
Saia andando quando Efêmero disse de súbito:
- Até mais.
Musa parou, respondeu com um sorriso retorcido:
- Até mais? Não nos veremos mais,
Efêmero disse em esperança vã e olhos opacos:
- Ainda nos veremos algum dia... Em algum lugar...
Musa olhou na profundidade dos olhos de Efêmero e esboçou seu ultimo sorriso sarcástico:
- Nem os dias são os mesmos, nem as nuvens são as mesmas... Boa sorte, Efêmero.
E saiu andando lentamente pela porta, como se já não estivesse mais ali.
Efêmero nunca mais a viu, e nunca a esqueceu.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Um Par de Olhos e Uma Caixa de Presente

- E então, meu amor, que presente você escolheu?

Era mais uma daquelas datas comemorativas, clássicas de calendários a se riscar. De qual data especificamente, não me lembro bem. Afinal de contas, todas são tão hipócritas e frígidas que não fazem a menor diferença. São apenas fios-de-barbante de marionetes conviventes, incessantes a dançar a dança do titeriteiro.
Sim, uma data comemorativa qualquer:

- E então, meu amor, que presente você escolheu?

O débil cônjuge perguntou para sua amada com um olhar complacente. Sua intenção era tão débil quanto sua índole. Porém, uma intenção débil é uma intenção mais pura que as outras. Talvez exista algum valor na inocência. Ou talvez inocência seja apenas mais um sintoma de um débil.

- E então, meu amor, que presente você escolheu?

Sua amada olhou, com um olhar meio tristonho, meio sem jeito. Um daqueles olhares que vem seguido de um imenso discurso, um argumento filosófico... Praticamente uma tese.
Ela olhou de sua forma insólita à reação esperada. O cônjuge insistiu:

- Vai querer aquela bolsa que você vivia namorando naquela sua loja preferida?

Tentou demonstrar seu interesse, sua notabilidade aos detalhes de seu quotidiano. Na verdade, tal cônjuge realmente só se lembrava da bolsa, da loja, dos detalhes, por reparar no decote saliente da simpática atendente de sorriso de plástico (sim, fazia parte do currículo necessário ter uma aparência atraente e um sorriso de plástico).

Sua amada o fitou, da mesma forma complacente, com este olhar tristonho incompreensível que começava a gerar alguma preocupação. Os olhos percorreram teu rosto até encontrar outros olhos e soltar sua língua. Disse:

- Não meu amor. Sabe, tenho pensando no sentido dessa coisa toda, dessas datas todas, de todas essas obrigações ... O que realmente faz sentido nisso tudo? O que significa aquela bolsa na vitrine, aqueles detalhes dourados, aquele couro marrom?

O cônjuge olhou, chocado com a resposta, em um estado estático e sem conseguir expressar ou sequer questionar a situação. Ele manteve seus argumentos, como se nada tivesse acontecido. Balbuciou palavras com um ar sedento de piedade, embora inconscientemente:

- Mas eu achei que você tinha gostado daquela bolsa... Tenho me esforçado para economizar o suficiente para te dar aquela bolsa. Eu achei que você gostaria da surpresa.

Ela respondeu, nem um pouco atingida pelo apelo emocional inconsciente e instintivo de seu cônjuge:

- Não meu amor. Não é isso. O que quero dizer é: o que significa tudo isso? O que significa mais uma bolsa cara em meu armário? Sabe... Eu queria algo mais simples... Algo mais humano.

A reação perdida dele, de forma incompreensiva, com o olhar a sucumbir num abismo de enigmas, os quais ele jamais realmente compreenderia. Tentou dialogar com alguma astúcia, com algum truque na manga num ato tépido de doçura e desespero:

- Mas então que presente você quer, meu amor?

Sua amada concebeu sua incompreensão. Concebeu o vazio que se alojava dentro de seu cônjuge. Ou o vazio que se alojava dentro de si. Como esse famoso vazio do qual tanto falam esses seres insatisfeitos com a realidade na qual habitam. Esse vazio... Esse vazio provocou uma resposta inusitada.

- Que presente eu quero? Eu quero... Eu quero seus olhos.

Sim, a este ponto tal cônjuge já refletia as luzes brancas daquele estabelecimento comercial em suas faces. O abismo de enigmas o consumiu, o atingiu de forma vil e um tanto dolorida. A reação foi um gaguejar estático de eco:

- M-m-m... Meus... Meus olhos?! Quer meus olhos de presente?!

Ela pariu um sorriso alegórico e tranqüilo. Olhou com olhar astucioso e respondeu com uma pequena ponta, quase imperceptível, de irritação:

- Sim, quero seus olhos. Quero seus olhos em minhas mãos, para que eu possa ver através deles. Quero seus olhos em mim, para que eu possa os encontrar quando os meus se perderem nas margens vazias... Quero seus olhos nos meus quando não houver solução, quando não houver problemas. Quero teus olhos numa caixa de presente, como uma prova de amor, de sacrilégio de emoção...

Seu diálogo alarmante chocou nos tímpanos de seu cônjuge como pequenos impactos dialéticos a golpear sua mente, causando esse estado de estaticidade, de impotência. Ela continuou:

- Quero seus olhos pra ter acesso a todos registros em suas retinas. Quero sua visão de mim, saciar o desejo de compreender como me conhece, como me vê. Quero seus olhos comigo, como guardiões confiáveis, como uma certeza nesse mundo tão incerto e inconstante. Quero a certeza de teus olhos sempre à mão. Quero teu olhar guardado na minha bolsa, só pra poder o observar, o ver cativar o meu... Quero tanto teus olhos que não sei dizer. Eu só quero eles comigo, nessa forma tão bonita de olhar.

Ele engasgou com sua língua, quase se sufocou nela. Não, ele não tinha nenhuma resposta pronta, nenhuma frase bonita. Não sabia ser cônjuge romântico e apaixonado, nem sabia dizer frases bonitas além das que encontrava em cartões prontos com frases célebres e seculares. Sua resposta foi a mais óbvia possível:

- Mas... Mas, meu amor, eu não posso te dar meus olhos. Eu preciso deles pra viver. Eu preciso deles pra trabalhar, pra te agradar, te confortar...
O rosto de sua amada se torceu, como se o estivessem esticado e torcido como um pano úmido. Sua expressão demonstrava uma cólera intensa, uma irritação tão profunda. O resultado foi um grito seguido de prantos inflamados:

- Eu só queria seus olhos! Seus olhos nos meus, seus olhos pra mim! Queria que seus olhos me enxergassem. Mas eles não me enxergam, não como pessoa! Eles não me olham como humana. Me olham como produto, como algo que você tem que suprir como uma máquina! Esses seus olhos... Não! Não os quero! Seus olhos me qualificam, colocam preços em minha satisfação! Seus olhos só vêem um consumo fútil! Não! Não quero seus olhos! Eles me enojam! Eles são ridículos!!!

O rugir de sua cólera através de sua boca, a expressão rubra em seu rosto, o gesticular agressivo de seus braços, todos os gestos... Todos eles, para o cônjuge não faziam o menor sentido. Ele não compreendia sua irritação, não compreendia os gritos que atingiam sua face. Não, ele não compreendia o que significava desejar olhos...

Sua amada arremessou a bolsa de mão em seu peito. Seu rosto escorria a uma dor profunda. Ela saiu de cena num andar furioso e cambaleante, deixando seu cônjuge estático, como uma estátua inane a olhar a paisagem sem vê-la.
Ele ficou, tão estátua como uma rocha. Observou-a deixar o recinto e se manteve estático, sem reação, sem compreensão, sem ela... Sem nada.

domingo, 26 de setembro de 2010

Nostalgia (Cemitério de Emoções)

Naquele momento eu senti dor. Sim, dor. E, ao mesmo tempo, eu nunca desejei tanto uma lâmina para me cortar. Eu desejei a dor. Eu a desejei, porém, de uma forma diferente. Eu desejei meu sangue escorrendo, pingando aos poucos, como lágrimas no chão. Desejei fazer meu corpo chorar, pois minhas lágrimas haviam secado.
Sim, eu senti dor. Mas não uma dor comum de quando machucamos nossos corpos sem querer. Eu senti uma dor para a qual não existem analgésicos para curar (pelo menos não especificamente). Um sofrimento sem atalhos, profundo e inadiável. Uma tortura irrelutante que simplesmente ocorre quando se sente falta de alguém.
Saudade. Sim, este é o nome. Saudade. E então um turbilhão de sons e imagens insurgiu em minha memória. E me vieram doces recordações de momentos sublimes, do ápice de minha existência desde então. Me vieram sorrisos, risos, abraços, beijos, conversas, gestos... Tudo de mais gracioso que ocorreu nos últimos tempos. E também me vieram lágrimas, brigas, discussões, ofensas e fatos dolorosos que antes tanto significavam, tanto doíam, e que hoje, lembro aos risos e lágrimas, se estas ainda me pertencessem.
Estas memórias me abraçaram de forma carinhosa, acolhedora e gentil. Um sorriso retorcido e incompleto se esboçou em minha face, pois este abraço, tão sublime, além de me acariciar me estrangulou. Junto da saudade nasce a dor. Pois saudade é gostar de algo que se foi, que não está mais presente. É tentar abraçar o intangível. É a decepção óbvia de falhar ao perseguir o impossível.
É tão triste ver como tudo perde o sentido diante de seu contexto. Como tudo se esvai aos poucos nos labirintos da memória. Que o concreto se torna abstrato, e o passado existe apenas como lembrança. Que as guinadas da trajetória da existência nos fazem tanto perder, tanto deixar para trás.
Guardamos nossas memórias em tesouros recônditos, de apreciação sôfrega e deleitosa. E estes tesouros evanescem como cadáveres a se decompor. Somos apenas um cemitério de memórias, de emoções obsoletas. Até sua remoção, como ossadas de indigentes no nosso cemitério de sentimento.
Jaz a imagem, o epitáfio de lembranças. O sentimento se abafa, se sufoca, morre aos poucos agonizante em sua asfixia.
È triste mas tudo morre, se decompõe e desaparece inexoravelmente.

sábado, 19 de junho de 2010

Noite Vazia

Nesta noite de insônia, o céu não demonstra significado algum. Não, nenhuma filosofia vã, nenhum pensando onírico, nenhuma nostalgia, nenhuma música, nada.
Escuta-se apenas o cantar obstinado de um galo distante nessas ruas vazias. Como se houvesse significado para este som irritante.

Talvez, nesta noite-quase-manhã de insônia, ele não tenha sentido tudo que poderia sentir. Talvez, se ele estivesse na ausência de seu cigarro, companheiro de toda solidão e de todo prazer, ou de seus analgésicos, essenciais deuses do conforto para sua atual situação, esta noite tivesse mais sentido e mais emoção.
Talvez este seja seu maior medo: noites sem emoção, sem objetivo, sem causalidade ou razão. Medo de tornar-se um ser-máquina comum como tantos existentes nesta tragicidade humana.

Um rosto seco e inexpressivo, uma mente sem foco e exaurida, impossibilitada de sonhar. O olhar vazio fita a parede branca, reflete-se em si um nada que consome.
Não existia nada para pensar, ou talvez não existisse capacidade para pensar. Apenas acendeu mais um cigarro, tragou-o pesadamente e observou o vazio dentro de sua mentalidade.

Nota-se um sinal de vida em si, um sinal de que não se tornara uma máquina padronizada. Nota-se uma irritação profunda por este ócio. Esta fadiga começou a o dilacerar. Este estafa inexplicável deu gênese a uma profunda inquietação irremediável. Não havia o que fazer. Ele sabia que não poderia dormir, que não poderia se refugiar em fantasias oníricas mais uma vez para dar algum sentido a uma noite vazia. Sabia que, em um ato desesperado, ligaria a TV e encontraria apenas futilidades irrelevantes que apenas o irritariam diante de sua inconformidade. Já havia se enjoado dos livros que possuía, de tanto lê-los e relê-los. Porém nunca havia tempo para comprar novos. E procurou possibilidades, perseguiu errantemente qualquer esperança, por mais vã que fosse, de se livrar daquele vácuo existencial.

Surtou em eloqüente frustração, sem nenhuma solução aparente ou nenhuma anestesia possível. Jogou-se ao chão em poeira inóspita e fitou o recipiente da lâmpada da sala em que se encontrava. Notou a quantidade de insetos mortos se acumulando naquele pequeno cemitério de criaturas insignificantes. Pensou consigo mesmo em diálogo irônico: - Como são felizes alienados estes pútridos insetos. Vivem por tão poucas horas que nem sequer precisam de significado para existir. Apenas cumprem seu instinto simples e padecem anestesiados em uma morte súbita e fria, pois não existe tragédia se não existe significado. Não existe mágoa se não existe o que lamentar ou o que perder, nem existe preocupação ou relutância.

Trágica é a humanidade, tão racional e tão perdida que procura obstinadamente por algum sentido para justificar sua existência.
Tão sôfregos, que quando se encontram na ausência de significado, desesperam-se e surtam incessantes até que algo os anestesie com alguma lógica ou emoção.

Ele concluiu seu devaneio, riu-se, e encontrou seu refúgio em seu carpete imundo no desmaiar de sua mente exaurida.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Doenças

Muitas circunstâncias o importunavam naquela manhã. Sensações ruins, exaustão, doenças que já se acostumara. Doenças que o perseguiram por toda sua mera bucólica vida. Dês das doenças mais comuns, como suas alergias, tosses, irritações, dores corporais, -conseqüências de sua vida boêmia- até seus transtornos mais profundos, que variavam de sua simples insônia, até suas insanidades mentais.

Doenças, meras doenças que o perseguiam, às vezes até agradáveis, como sua insônia, que o mantinha acordado de noites à manhãs, lendo, escrevendo, e vivendo experiências noturnas, as vezes, com sorte, até febris.

Eram tão inconvenientes como sua própria sombra, quando as perseguia, elas se afastavam, quando fugia, elas o perseguiam.

Era um pequeno e divertido jogo que o afastava do tédio.
Seus transtornos que tanto apreciava, dês da instabilidade de sua bipolaridade, que muito agradável, mesmo em histeria inconseqüente, mesmo em melancolia suicida, até as paranóias que o faziam delirar em hipóteses tão absurdas, as quais adorava retratar em suas obras.
Havia também seus transtornos emocionais, diferente de suas confusões mentais, não eram diversão, -não deixando de ser prazer- mas sim uma responsabilidade, uma sina, um bom motivo para se manter vivo nesse caos que era sua existência.

Suas melancolias melodramáticas que eram seus amores platônicos; sua necessidade de gestos sutis, que eram sua carência; seu pensamento profundo nas mais soturnas noites, que eram sua solidão; a intensidade, os gestos atenciosos e a atenção que eram seus romances -que maioria das vezes, duravam apenas uma noite, infelizmente-
Um cotidiano intenso, cheio de alegorias, melancolias, e diversidades. Alguns chegavam a considerar a hipótese de que este tinha múltiplas personalidades. Hipótese mais insana que a personagem a qual retrato aqui. Não era composto de várias personalidades, mas sim de várias personagens!

Um cotidiano intenso, nem sempre no bom sentido da palavra. Pois sua intensidade variava de uma intensidade fria, praticamente sólida, uma intensidade tépida, quase justa e equilibrada, e uma intensidade febril, na qual todas situações eram possibilidades, e todas idéias fluíam em velocidade imperceptível.

Era exaustivo variar tanto sua condição comum. Uma vida que não escolhera, e que por mais que gostasse em um deleite um tanto bizarro, era desgastante. Existiam os momentos que esta infame personagem apenas desejava um pouco de harmonia -algo que, para este, era uma utopia- em seu tão instável cotidiano. Nestes momentos de exaustão -tanto emocional, quanto mental, quanto física, diante de seus hábitos desgastantes- chegava, por poucos momentos, a se tornar inerte.

Chegava a ser desumano o desrespeito que tinha por seu corpo. Era praticamente um masoquista a torturar a si mesmo com suas próprias ferramentas de auto-flagelação. E por mais infame que fosse sua situação, até seu desgaste, em todas as formas possíveis, eram prazeres. Era, de fato, um masoquista.

Provável que este personagem forjasse suas doenças, seus transtornos, seus hábitos desgastantes e suas sinas emocionais com o propósito de se exaurir, ou talvez de apenas tentar ocupar todos minutos que o relógio o disponibilizava. Fuga, talvez. Mas do que este ser estava tanto a fugir?

Algo mais profundo do que todas suas forjas e circunstâncias não fora citado ainda. Mais soturno e miserável que o deleitar de suas situações de prazer comum, ou de seu prazer bizarro -pois para este, tanto a dor quanto o prazer comum, eram ambas situações para se deleitar- era o único sentimento que, de fato, o pungia. Aliás, não um sentimento, ou um transtorno, ou doença, ou decadência que fosse, mas sim a ausência de tudo isso.

Fuga, sim, provavelmente. Pois a única situação que o pungia, de forma tão cruel, a qual evitava ocupando seu tempo com produção artística, noites ébrias e obrigações ocasionais -inutilmente-, sempre se deparava com seu maior medo, sua maior agonia. O vazio.

Seu maior medo, sua maior agonia, sua tortura sem prazer. O vazio
Conflitava com este inevitável, inquestionável e incompreensível inimigo cotidianamente. Terrível tortura para este pobre ser. Era irrelevante ocupar seu tempo se entretendo com seus conflitos emocionais, produzindo suas tão prezadas obras, convivendo em sua sociedade hipócrita, se afastando da realidade em sua boemia decadente, pois sempre se deparava com o tão cruel conflito que era o de enfrentar o vazio dentro de si.

Um medo irracional talvez. Mais um motivo para ser chamado de louco por todos aqueles que não compreendiam sua insólita lucidez -ou seja, todos, de fato-Mas era inevitável entrar em conflito com este espectro negro em seu ser. Esta doença mor que se alimentava de seus muitos vícios e poucas virtudes.

Um parasita, que subtraía de si, um pouco de sua humanidade, diariamente. Um processo que o tornava cada vez mais atroz. Situação que somente viria a cessar no momento de sua libertação final.

Mas era, de forma realmente macabra, interessante fazer parte deste logo, pois, de fato, não era uma realidade tediosa.

O conflito diante do romance incompreensível

E depois de muitas noites mal dormidas. De dias pensando na mesma pessoa, que me enfeitiçara com tamanha eficácia a ponto de me fazer deixar de pensar em situações alheias, fatos cotidianos, argumentos, filosofias...
Enfeitiçara-me a ponto de excluir de minha mente todos os conhecimentos de adquirira através de minha experiência de infame vivencia miserável.

Surgiu motivação, esperança por este romance, pois todo início de romance sempre traz aquela sensação insólita de alegria débil, de sorrisos espontâneos e olhares em devaneio. Surgiu esperança de completar o vazio que se manteve a me consumir num ato voraz e vil.
Falsa esperança eu diria. Tão comum falsa esperança, da qual todos um dia já provaram.
A falsa esperança de encontrar em algum ser alheio a solução de suas mágoas. O preencher da lacuna tediosa e voraz de seu tragicômico cotidiano.

Tudo que o ser humano procura. Completar a si mesmo. Plenitude. O ato mais imbecil que o ser humano pode cometer, e comete,
é o de ter a falsa esperança de encontrar em outro ser humano (tão vazio quanto este mesmo) o preencher desta tão lúgubre circunstância comum.

Estava a vivenciar, novamente, esta falsa esperança, mas de uma forma diferente. Esta pessoa conseguira tirar todo conhecimento, toda a auto-preservação de sua mente. Tornou-se um sentimento desesperado e, logo, uma gafe.
A sensibilidade do ser diante desta situação incomum, portanto desesperadora, realmente preenchera este vazio, mas não da forma tão plena que se deseja. Apenas substituíra o sofrimento do vazio pelo sofrimento de um amor platônico.

Por tamanho desespero que sofrera por causa deste sentimento em sua intensidade toda, não conseguia preservar a si próprio, nem respeitar a si próprio, e muito menos pensar em si próprio.
E por estas circunstâncias, fora tomado, completamente, pelo sentimento constrangedor da insegurança. Por insegurança, que resultou em sua falta de atitude, em seu nervosismo, e por fim, em seu trágico sofrimento. Esta a justificativa do sofrimento de um amor platônico: a insegurança, que resulta na falta de atitude, e assim na impossibilidade de vivenciar tal sentimento, já que impossível declará-lo.

Mantive-me em sofrimento, por horas, dias, semanas... A terrível sensação de inaptidão me fizera pensar na incapabilidade, considerando os argumentos internos e externos diante dessa situação emocional masoquista.
O sofrimento agoniado, e sem possibilidade de mudança. Tão terrível sombra diante de teu ser, que o impedia de dormir ou acordar, que o impedia de pensar, que o fizera chorar por este tão vasto período cruel.
Era praticamente atroz sofrer desta forma. Porém, preferia sofrer agoniadamente, sem sua segurança, sem voz, por este romance de uma só parte, do que sofrer pelo vazio, que o consumira aos poucos durante os anos, subtraindo cada vez mais seu precioso sentimento de si.

Aceitava ser o romântico que era, e apreciava muito o sentimento que é amar. Até como a maior dor que um triste ser obtém através do mesmo.
Dilacerando a si mesmo, lenta e dolorosamente. Não havia outro pensamento em sua tão cega mente.
Mantinha sonhos, lembranças sobre esse amor. Fechava os olhos, e podia vê-la tão claramente a ponto de considerar a possibilidade de tocá-la.
Sonhos e lembranças que o pungiam ainda mais, de forma ainda mais cruel.
Tudo relacionado a romance passou a torturá-lo. A imagem de um casal o fazia pensar na possibilidade de estar acompanhado por sua amada, e, logo, o fazia lembrar a impossibilidade e da realidade que vivia.
Escrevia poesias, prosas, crônicas, pensamentos, sonetos, todos sobre este romance. Todo seu conhecimento literário, toda sua produção artística se voltara a ela.

Perdia-se em si mesmo, conflitando sua (agora tão prejudicada) racionalidade com sua sensibilidade. Estava atordoado, confuso, ausente. Seus sonhos tomaram conta de seu pensamento, suas fantasias substituíram suas teorias, e seu obsessivo romance substituía sua filosofia.
O preencher de seu vazio o pungia. O vazio em si, também o dilacerava. Não encontrara solução alguma para nada, já não conseguia pensar.
Tornara-se atroz, um animal romântico incapaz de raciocinar.
Essa metamorfose acontecia dentro de si imperceptivelmente.

Certa manhã, já desumanizado, sofreu uma overdose deste sentimento.
Desumanizado, desanimalizado, convertera-se em nada.
Um objeto inerte a toda situação que vivera interna e externamente.
Um corpo sem mente, desalmado, frio e sem vida.

Manteve-se desta forma por alguns minutos e logo regressou a si.
Voltou a ser, realmente. Pensava com normalidade, suas filosofias jogavam em sua face o quanto se tornou ocioso.
Não sentia mais a intensidade romântica que sentira, porém não deixara de ser um romântico.
Assim como a intensidade, a insegurança também evanesceu subitamente. Porém, não deixou de amar, apenas deixou de ser o masoquista que era antes.

Estranhamente, o vazio também não estava presente nesse momento de epifania.
Encontrara o equilíbrio de si mesmo, depois de tantas descargas emocionais, tantas lágrimas desesperadas, encontrara seu eixo.
E somente neste momento de epifania, soube que ainda poderia seguir em frente e lutar pelo que sentia. Pois agora havia segurança em si, e somente agora deixaria de conflitar consigo mesmo, e passaria a conflitar com o externo de sua infame vivência ao invés de conflitar consigo mesmo.
Compreendera o significado de "completo". Compreendeu, novamente, que somente ele mesmo poderia completar a si.
Porém, não deixara de ser o romântico que é, muito menos deixara de amar, ainda esta mesma pessoa.
E seguiu em frente, sem se importar com o sucesso ou com o fracasso.