terça-feira, 6 de abril de 2010

Essencialismo Rebelde

Eu preciso de um paradigma para quebrar
Preciso de uma leia para desobedecer
Preciso de um fardo para carregar
De uma obstinação para ser.

Pois sem um costume para discordar
Não existe desafio para motivar.
Resta apenas
Um ócio para viver.

Eu preciso ser
Um oprimido original
Para alguma coisa ser.
Porque minha essência filosófica
É desobedecer.

Pois a minha função sociológica
Tão rara e exótica
É criticar o outro existir.
Pois minha essência filosófica
É desobedecer.

segunda-feira, 29 de março de 2010

O Contemplar Moderno

Porque vivemos nós
Na sombra alheia
De velhos gênios
Que já morreram?

Porque contemplamos
E não criamos?
Porque não existem
Contemporâneos gênios?

E reproduzem e discutem
Obras clássicas
De outra era.

E contemplam ao invés de ser
E relembrar ao invés de fazer
Porque tantos intérpretes e tão poucos poetas?

Equilíbrio de Miséria

Talvez as alegrias e misérias
Deste mundo, estejam estas
Colocadas em uma infame
Balança adulterada.

Pois a alegria de um
Sempre será a miséria do outro.
E não há justiça
Há apenas equilíbrio.

Talvez estas alegrias sejam
Espectros raros, limitados
A vagar pelo cotidiano
Atingindo e fugindo dos seres.

Talvez a tristeza seja
A ausência de uma alegria
Que poderia ter existido.

Ou talvez esta seja
O sentimento que dilacera o ser
Por lamúria, por dor...
Ou simplesmente
Por razão nenhuma.

Porém tudo passa
Tudo se metamorfoseia.
E definitivamente esta é a beleza
De existir nesta trajetória
De infortúnios e sorrisos.

Nada é eterno
Algumas circunstâncias apenas
Demoram a evanescer...
Outras foram apenas
Ilusões peculiares
Que nunca existiram.

Observação Dialética

Ilusões onipresentes na existência
Pois é inconstante o identificar
Das falsas verdades perante a peculiar realidade.
Afinal, uma falsa verdade
Não deixa de ser uma verdade.

Que sejamos bons omissores
E não mentirosos.
Pois a mentira reflete o algo falso,
A omissão é apenas estratégica.

Essência Fúnebre

Tão visível a essência da humanidade
Diante de teus simples e irremediáveis olhares
Pois nada é mais sincero
Do que a expressão súbita de sua face.

A simples e complexa essência humana
Tanto na frieza do raciocínio lógico
Quanto na incendiária emoção alheia.
Caracteres planos e esféricos
Recaem sobre nós.

Tão visível a alegria débil
Do início da existência.
O olhar alegre e alienado
A pureza da inocência
Da faceta de nossa fase mais primitiva
E animalesca.

Tão obstinado e inflamado
O grito e o olhar da juventude.
O primeiro questionar, o primeiro rebelar.
O primeiro grito junto de sua metamorfose.
O essencial desejo de expressar.
O ocorrer de suas primeiras simples mortes...

E começam a surgir os primeiros detalhes
As primeiras formas em sua escultura existencial.
Como o lapidar do granito
Nas mãos do escultor.

E entra em contato com a complexidade
Do sentimento em si manifestado.
Aprende-se a odiar e a repudiar,
A amar e a fazer,
A ser e estar.

E vagamos piamente
Em verdades que se tornam desilusões,
Em sonhos que se tornam tangíveis,
Em pesadelos que são passados para trás...

Encontram-se tesouros e armadilhas
Perdidas em nossos atos e desejos.
E se dá o nome de vida
Ao existir infatigável.

E corremos e corremos
Em busca de ambições e metas
Encontramos ombros amigos
E punhos alheios.

Pois pisamos em cabeças
Nesta estrada desertificada.
E somos pisados
Na ausência presente
Desta mesma estrada.

E se perde nossa vitalidade
Com o passar das estações.
Apodrecemos e caímos aos poucos
Como folhas no outono
Entre o doce e o amargo.
E o que mais fazemos
Além de morrer?

segunda-feira, 8 de março de 2010

Lágrima Brilhosa

Nossa bela harmonia
Regada de graça e irresponsabilidade.
Nesta tão bela noite fria
Teu sorriso me ilumina na escuridão.

Tua face ebúrnea, tão linda
E teu astucioso olhar
Me enfeitiçam, me alegram,
Me levam para longe daqui...

Longe, onde nada possa nos importunar.
Longe de tudo, de todos
Onde possamos estar
Enfim em paz, enfim a sós.

Livres para deleitar
De nosso tão agradável
Diálogo poético,
Pois tu, para mim
És uma bela poetisa.

E eu, livre, para deleitar de teu tão doce beijo,
No fechar de meus olhares...
E ao abri-los, surpreender-me alegremente
Ao apreciar tua tão bela face.

Surpreender-me por estar ao teu lado,
Desvendando teu doce beijo,
Na harmoniosa atração de nossos corpos.
O desfrutar de nosso proibido desejo.

E o prazer de entrelaçar
Teus braços aos meus,
De acariciar o castanho macio
De teus fios de cabelo.

Nosso romance vampiresco
Entre mordidas e risos
Faz o florescer em meu ser
A alegria que eu havia esquecido.

Livres em nossa longa noite isolada
Como envoltos em uma esplêndida fantasia.
E quem diria,
Em uma noite sem expectativa
De grandeza pressentida
Surgiria a beleza improvável de nosso romance?

E, subitamente, o quebrar de nossa fantasia.
Você é lavada para longe, de volta.
E eu remanesço aqui nesta noite fria.
Em um despedir frio e oprimido
Teus olhos transmitem preocupação aos meus.

Tu vais, e deixas a esperança de que
Este não seja o último capítulo
De nosso tão gracioso romance.

E deitarei ao meu leito nesta manhã
Com meus olhos ansiosos sob ti.
Nostálgico em minha recente memória
Da doce beleza de tua lágrima brilhosa.

[26/02/2010]

Seres Sem Sombra

Marionetes mecanizadas
Sistematizadas em hipocrisia
Para futilidades programadas
Meras existências sem poesia.

Ridículas e fatigadas
Movidas pela mão da mídia.
Alienadas e desorientadas
Impostas a uma ilusão qualquer.

Sustentam a modernidade
Como se nada estivesse errado
Como se houvesse igualdade
E não houvesse nem sequer
A existência de um simples miserável.

Malditas sejam vossas cabeças de vácuo.
Seus olhares vazios
Envenenam e apodrecem
Parte da existência alheia.

Adoecem o ambiente em que vivem
Exalando o odor fétido de uma hipocrisia demasiada.
De um moralismo ridículo e retrógrado
Com uma miséria anti-intelectual.

Tal moralismo alienante é inconcebível
Pois jamais existiu nesta inconstante realidade
Um intelectual sóbrio e sem contato com a onírica loucura.

Faz mais sentido ser saudável em doença
Pois a sociedade é uma doença mascarada.

Pobres dos doentes, sóbrios e lúcidos,
Estes sim são os insanos imbecis.