terça-feira, 17 de maio de 2011

Menina-Anacronia

Oh menina, oh menina
Em meu tépido peito enclausurada.
Oh menina, graciosa vítima
De minhas febris serenatas!

Oh menina que me esquentou,
Que em mim consolidou mais uma anacronia.
Agora tua ausência me esfria em nova alteridade,
Após a alvorada que se rompeu
[e o dia que mal começou.

Oh menina, oh menina!
Não minta, não diga
Que após colocar um alvo no peito
Não quer ser pelas flechadas atingida!

Oh menina, sorria!
Tu tens uma flecha no peito!
Deixe-o sangrar!
Deixe teu seio respirar!

Pois enquanto uns as arrancam,
Apavorados no mesmo medo,
Outros de coração oco
Clamam e suplicam pelo mesmo!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

É Preciso Ser Personagem

É preciso ser personagem, neste palco
Com toda sua efemeridade e sua inconstante cenografia,
Nesta transmutação-viva de imagens e sugestões,
É preciso ser personagem para que haja graça
Para a platéia apreciar.

É preciso que haja ação,
Que haja pulmões, coração,
Pernas e braços realizando movimentos,
Prendendo a atenção do público
Com a dança insana e incomum
Das personagens do momento.

É preciso cantar loucamente numa noite ébria;
É preciso chorar desesperadamente (e fazer chorar a platéia);
É preciso ronronar deitado na cama tépida
E gritar de dor numa guinada mal sinalizada.

É preciso sentir impreterivelmente,
Mesmo que isto não signifique mostrar os dentes,
Expor a alma no palco mesmo diante da face
Do sofrimento eminente.

É preciso ter caráter, ideologia, honraria,
Ou simplesmente algo para acreditar,
Ter algum algo para amar,
Alguma cruz para carregar
Ou cova para soterrar...

É preciso ser personagem e atuar,
Ser força ativa do mundo,
Ser o escritor cansado e moribundo
A escrever as fantasias oníricas
Do submundo tão sensível dos artistas.

É preciso ser Sócrates, Platão e Aristóteles;
Ser Schopenhauer, Nietzsche e Empédocles;
Porém, é preciso também ser Caeiro, Baudelaire e Azevedo
Sem ao menos escrever um soneto.

É preciso ser personagem gracioso no palco,
Para que a platéia tenha motivo pra existir,
Para que o ator tenha motivo pra existir.
Porém não ser simplesmente artista na face do mundo,
De alma recôndita, contida,
Mas é preciso somente
Ser artista na esfera da vida.

domingo, 1 de maio de 2011

Nossos Cacos

Todo nosso caso de acasos
Deveria ser banhado por lágrimas e risos,
Beijos e abraços submissos
A essa coisa estranha que chamam de destino,
E não narrados pelos carros que nos atropelaram,

Nem pelos cacos de vidro
Que nossas faces percorreram e cortaram
Ao desintegrar-se da vidraça da alma.

Faltou aquela melodia daquele violão velho.
Aquele pedido absorto atingindo a superfície,
Aquele sorriso torto fugindo
Da esquisitice de ser sincero.

Faltou o grito das estrelas,
A iluminação da estréia de nosso espetáculo,
De quando as trajetórias de nossos lábios
Se encontraram no primeiro ato.

Faltaram os cacos dos corações dilacerados
Se consolando no ventre da noite;
O gesto da carícia empática
Que há entre os desamparados.

Faltou realidade, faltou sonho...
Faltou o primeiro momento teu,
Momento meu de quando eu criei
Um mosaico com todos nossos cacos.

Sim...
Faltou o primeiro momento que se dissolveu,
Que o tempo rompeu,
Noite que amanheceu,
Sonho que se acordou,
A única lágrima brilhosa que escorreu.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Na Boca do Abismo

Juntam-se os símbolos
Na boca do abismo.
Aonde a luz não alcança,
Aonda as estrelas são mudas.

Jutam-se os livros, espelhos e cadernos;
Sintetizam-se os gritos, os bispos e as preces;
Seca-se o sangue, alimentam-se os vermes
No abstrato de cores que se apagaram.

Jutam-se e nada, e logo se decompoem
Deixando apenas os retratos, os diários
Nas bibliotecas que não se incendiaram.

Pois de nada existe tudo e de tudo existe muito,
Na empatia, na apatia de poetas moribundos.
Sintetizam-se os sígnos, sintetiza-se o mundo
[E nada mais importa.

terça-feira, 22 de março de 2011

A Balada do Poeta Ébrio

Gosto dos inebriantes, dos entorpecentes,
Da leviandade dos etílicos e etéricos.
Da pureza de corromper-me
Com a liberdade venenosa.

De sacrificar mera carne
Pelos prazeres de-uma-noite.
De quebrar muros, enfatizar sonhos
E ver o invisível inexistente.

Pois tais prisões são libertadoras
E as outras são autoritárias
E as lentes delicadamente lisas
São aquelas que não se (ar)riscaram de oportunidades.

E dou graças ao pai desta ovelha desgarrada
Ao saber que jamais chegarei novo aos 50
Sem ter vivido pelomenos 20,
Sem ter saido das velhas grades
Do velho berço.

E abençoado seja o fluído da chuva dos loucos
Com a graça e a genialidade
Dos (in)sanos infantes
Que morreram de overdose.

E que fique claro que
O homem cria remédios para sobreviver
A sua criação feroz.
Então, que sou eu além de um remediado, de uma cobaia curada?!

E quando o túnel das pupilas se abrir
Tornarar-se-a largo e anestesiado
Para o violar de meus olhos cândidos
Com as impurezas artificias do mundo.

As lágrimas a escorrer terão gosto forte-amargo
E percorrerão minha face
Denunciando o cego epilético que sou,
Que são os bixos-homem.

E apenas me restou engarrafar a poesia
E ingeri-la, e digeri-la, e vomita-la
E acabar-me num obsoleto livro
De poetas anônimos.

E assim, e-portanto-e-então
Acabarei como um deturpado,
Um perturbado nos sanatórios da "realidade";
Um drink composto das patologias mais cruéis.

Um drink que jamais seria consumido
Por ser subjulgado por cadáveres artificiais
Que nunca chegaram a viver.
E sem me importar, eu, bebida dos boêmios decadentes,
Vou para o fundo da prateleira sem ao menos dizer:

"De nade vale julgarem as tumbas
E os restos mortais que as hatibam.
Corpos são corpos,
Uns viiveram até o fim
Outros de suas tumbas nunca sairam."

Ansiedade

Balões-nuvem fluem e flutuam
Freneticamente nesta correnteza interna
E borbulham e efervescem inconclusivamente,
Incompletos e inertes,
Censurados pelos movimentos membrais.

Acendendo e apagando em curtos-circuitos.
Resultando no ócio epilético
Do ranger de ossos.
Tamanha inquietude física
Que se poe como obstáculo
na trilha do pensamento,
Curva na face linear.

Paradoxo de expectativas,
De metas que podem não se cumprir,
Num insuportável aguardar atroz
Impotente diante dos ponteiros.

Movo-os piamente
No intuito vão de tentar
Fazer acelerar
O nascer desta lua preguiçosa.



Esperar, no âmago de meu ser
É uma das maiores agonias existentes.

domingo, 6 de março de 2011

Mais Um Bêbado De Lástima

Teus olhos perdidos na paisagem
Voando pelos ares, nos encantos do mundo.
Meus olhos afogados em lágrimas, em lástimas,
Sufocados nas pálpebras de insônia.

Teu riso que transcendeu meu corpo
Que abençoou minha existência
Que me deu sopro
Pra eu poder voar.

E jamais compreenderia
Como tais dentes parecem agora
Canibalmente me devorar

E jamais por agora encontraria,
Depois que a água benta virou vinho-sangue,
Melhor saída, cruel bebida para de lástima
[Me embriagar