“Foi um pouco de tudo no meio do nada”
Enquanto não-santos foram fieis de fidelidade diferente – nada de coisas concretas, só poesia.
O palhaço e a palhaça decidiram: ao invés de pagar caro por várias doses,
Escolheram pagar por plenas garrafas.
A palhaça lhe deu um nariz, o palhaço a deu um complexo.
Ambos riram destilados - e daqueles também – diante de seus cigarros...
O palhaço disse:
- Eu gosto de marcas, são memórias concretas. E toda experiência é sempre válida.
A palhaça ficou vermelha como seu nariz...
Trocaram pronomes, adjetivos, verbos e métricas presentes e ausentes
Eles haviam se soterrado.
Sintetizado intenções que tomaram caminhos diferentes diante do frio e da poesia.
(...)
O palhaço fitava e lia as paredes enquanto a palhaça fazia café.
A palhaça disse – com canecas e garrafa a mão:
- Vamos escutar a gaita, já que não fizemos o pandeiro e a flauta.
O palhaço sorriu com bafo de café enquanto recusava-se a voltar do onírico
Metade do brinco sumiu, a outra ficara com a palhaça.
Caminharam, o palhaço sem-brinco-com-nariz e a palhaça com meio brinco e um complexo amaciado pelo cômico, pelo sol da manhã que já se esvaira.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
terça-feira, 5 de julho de 2011
O Câncer Do Vazio
- Bla bla bla, e todas coisas mais que você diz sobre si mesma, não passam de outdoor mal-colado na avenida, de pixação rústica no muro sujo da rua escura...
- Largue de ser cínico e hipócrita Poeta Ébrio, tu sabes que o único decadente aqui é você!
- Eu que sou o decadente, Musa!? Não sou eu o robotizado, a maquininha de caixa-eletrônico que expele notinhas pelas partes baixas! Não sou eu a engrenagem, lubrificada pelas cabeças de cima da nuvem, rodando sem parar neste organismo grotesco de suor e sangue!!!...
- Não comeces o discurso piegas e seu blábláblá bêbado-surreal nesta salada de críticas metafóricas que usas como argumento no diálogo unilateral. Tuas lânguidas e porosas falácias são apenas folhas secas que passam pelo meu fronte no outono: Ou nem sequer me atingem, ou são simplesmente pisadas pelo meu sapato.
Poeta Ébrio aponta para a face de Musa com seu júpiter furioso
- Tu és cega pelas mesmas configurações e condicionamentos que mecanicamente responde e ganha um biscoitinho, como uma cadela adestrada!
Julgas “diálogo unilateral” a língua do poeta que tu não entendes – e jamais entenderá – se não libertares a poesia estagnada, na cela enferrujada, do peito exasperado!
O silêncio envenena o ambiente, ambos sufocam suas línguas com a epidemia venenosa dos ecos de cada pequeno som diante do vácuo. Musa fita o céu cinza da noite urbana, através da lente suja, com um olhar de cólera em síntese com seu corpo rijo e tenso. Acende um cigarro aos tremeres inconscientes, e guina teu olhar infectado pela mais pura ira que um dia Poeta Ébrio já vira:
- Tu jamais entenderás o que é o determinismo, cretino-como-câncer, de um bando de cabeças mecânicas-em-vácuo que te estupram desde a infância com suas imagens vazias, cheias de pretensões e terceiras-intenções, de fetichismo da existência!
Poeta Ébrio se levanta da cadeira cheia de formigas e infectada pela ansiedade oca de tremeres, caminha mancamente pela sala, em disfarce de adolescente chegando bêbado em casa às cinco horas da madrugada. Seus olhos se esbugalham com o comentário de Musa, porém, ainda sim, a observa com um olhar soberbo, como se Musa fosse apenas mais uma ovelha desgarrada aprendendo a andar sem um pastor. Pretendia ajuda-la se não fosse cega-surda-tagarela.
Musa inconteve o silêncio e continuou o falar exasperado, soltando todos seus demônios recônditos encima de Poeta Ébrio:
- Minha mente é uma cabeça matastaseada com o câncer do vazio! O fetiche condicionado consome apenas lixo enfeitado, eufemismos de realidade! Não tenho um filtro que separe o entulho do extulho, nem o lixo do luxo!
Poeta Ébrio agora se inconforma,vê em Musa um espelho partido, sujo pelas poeiras do existir, vê teu passado gritando: “Tu jamais atingirás tua obra, Poeta-Pateta na contramão!”.
Exaspera teu grito de sermão libertador:
- Tu não tens filtro?! Tu apenas observas pelas lentes! Apenas olha pelas lentes opacas, trincadas, machadas e distorcidas pelo padrão! Teu erro é observar por lentes!
Pare de procurar caminhos e crie estradas! Pare de lamentar tua infecção pela configuração, tu não és a única! Pare de observar por lentes, seja a lente!
O Poeta bate a mão esmagadora sobre a mesa e fita Musa com o olhar desconcertado. Esta olha para os próprios sapatos e, em conflito existencial pleno, observa seu pé se mexendo histericamente.
Ele olha as horas no relógio, se aproxima da porta do apartamento, seus passos ecoam caminhando pelo silêncio, observa Musa tremer enquanto seus olhares abrem e fecham e seu rosto se rubora:
- Sabe qual é o silêncio mais cruel que existe? O da madrugada, pois este poderia simplesmente não existir se estivesse no lugar no certo, na hora oportuna e libertadora, quando as luzes se apagam e os loucos não precisam usar máscaras.
Não há mais nada a se dizer neste cômodo oco.
O Poeta Ébrio abre a porta, dá seu primeiro passo de fim-de-noite, e bate a porta do apartamento de Musa, como se se despedisse com o barulho ecoante de sua inconformação decepcionada da madeira barata batendo no estalar do portal daquele universo que julgava pobre.
Musa chora durante duas horas até desmaiar de sono e tensão enquanto Poeta Ébrio desmaia em uma calçada no centro da cidade.
- Largue de ser cínico e hipócrita Poeta Ébrio, tu sabes que o único decadente aqui é você!
- Eu que sou o decadente, Musa!? Não sou eu o robotizado, a maquininha de caixa-eletrônico que expele notinhas pelas partes baixas! Não sou eu a engrenagem, lubrificada pelas cabeças de cima da nuvem, rodando sem parar neste organismo grotesco de suor e sangue!!!...
- Não comeces o discurso piegas e seu blábláblá bêbado-surreal nesta salada de críticas metafóricas que usas como argumento no diálogo unilateral. Tuas lânguidas e porosas falácias são apenas folhas secas que passam pelo meu fronte no outono: Ou nem sequer me atingem, ou são simplesmente pisadas pelo meu sapato.
Poeta Ébrio aponta para a face de Musa com seu júpiter furioso
- Tu és cega pelas mesmas configurações e condicionamentos que mecanicamente responde e ganha um biscoitinho, como uma cadela adestrada!
Julgas “diálogo unilateral” a língua do poeta que tu não entendes – e jamais entenderá – se não libertares a poesia estagnada, na cela enferrujada, do peito exasperado!
O silêncio envenena o ambiente, ambos sufocam suas línguas com a epidemia venenosa dos ecos de cada pequeno som diante do vácuo. Musa fita o céu cinza da noite urbana, através da lente suja, com um olhar de cólera em síntese com seu corpo rijo e tenso. Acende um cigarro aos tremeres inconscientes, e guina teu olhar infectado pela mais pura ira que um dia Poeta Ébrio já vira:
- Tu jamais entenderás o que é o determinismo, cretino-como-câncer, de um bando de cabeças mecânicas-em-vácuo que te estupram desde a infância com suas imagens vazias, cheias de pretensões e terceiras-intenções, de fetichismo da existência!
Poeta Ébrio se levanta da cadeira cheia de formigas e infectada pela ansiedade oca de tremeres, caminha mancamente pela sala, em disfarce de adolescente chegando bêbado em casa às cinco horas da madrugada. Seus olhos se esbugalham com o comentário de Musa, porém, ainda sim, a observa com um olhar soberbo, como se Musa fosse apenas mais uma ovelha desgarrada aprendendo a andar sem um pastor. Pretendia ajuda-la se não fosse cega-surda-tagarela.
Musa inconteve o silêncio e continuou o falar exasperado, soltando todos seus demônios recônditos encima de Poeta Ébrio:
- Minha mente é uma cabeça matastaseada com o câncer do vazio! O fetiche condicionado consome apenas lixo enfeitado, eufemismos de realidade! Não tenho um filtro que separe o entulho do extulho, nem o lixo do luxo!
Poeta Ébrio agora se inconforma,vê em Musa um espelho partido, sujo pelas poeiras do existir, vê teu passado gritando: “Tu jamais atingirás tua obra, Poeta-Pateta na contramão!”.
Exaspera teu grito de sermão libertador:
- Tu não tens filtro?! Tu apenas observas pelas lentes! Apenas olha pelas lentes opacas, trincadas, machadas e distorcidas pelo padrão! Teu erro é observar por lentes!
Pare de procurar caminhos e crie estradas! Pare de lamentar tua infecção pela configuração, tu não és a única! Pare de observar por lentes, seja a lente!
O Poeta bate a mão esmagadora sobre a mesa e fita Musa com o olhar desconcertado. Esta olha para os próprios sapatos e, em conflito existencial pleno, observa seu pé se mexendo histericamente.
Ele olha as horas no relógio, se aproxima da porta do apartamento, seus passos ecoam caminhando pelo silêncio, observa Musa tremer enquanto seus olhares abrem e fecham e seu rosto se rubora:
- Sabe qual é o silêncio mais cruel que existe? O da madrugada, pois este poderia simplesmente não existir se estivesse no lugar no certo, na hora oportuna e libertadora, quando as luzes se apagam e os loucos não precisam usar máscaras.
Não há mais nada a se dizer neste cômodo oco.
O Poeta Ébrio abre a porta, dá seu primeiro passo de fim-de-noite, e bate a porta do apartamento de Musa, como se se despedisse com o barulho ecoante de sua inconformação decepcionada da madeira barata batendo no estalar do portal daquele universo que julgava pobre.
Musa chora durante duas horas até desmaiar de sono e tensão enquanto Poeta Ébrio desmaia em uma calçada no centro da cidade.
terça-feira, 28 de junho de 2011
Mosaicos e Paródias Do Canibalismo Secular
Vejo e beijo o povo como um bando de microondas lotados de migalhas podres, cheias de fungos... Naturezas mortas tão belas...
Da minha língua, nenhuma destas bitucas de cigarros apagados não-por-mim, saca, entende, ou comenta sobre...Língua de poeta ébrio, louco como dizem...
Só as línguas manchadas pelo etanol, pelo propinol, pelo tal-tal produto de industria farmacêutica que não sei nomear, que não sei dizer sobre... Línguas manchadas entendem línguas manchadas...
Serei a língua podre do difunto moribundo desbundando do caos e fazendo loucuras nas correrias das estradas e estradas e estradas que não fazem – nem nunca fizeram – tanto sentido... Como pena flutuante, diria, como bobagem que se diz e não se lembra...
Como ser um pedaço de universo, preenchendo suas lacunas com o blues do lacrimoso, o jazz do swingado, o folk do inspirado e a ausência do impiedoso...
Esses eletrodomésticos não calam a boca! Vivem com suas radioatividades baixas e tão letalmente inertes e irrelevantes...
Nem sequer me dão um câncer!
Me poupem do discurso pieguisse-sobre-pieguisse e igrejas e padres e jesus e nadas...
Diria que existe um murro na parede para cada tijolinho laranja que se prosta nas paredes góticas, romanas, postólico-romanas! Ou simplesmente venenos contemporâneos... Acreditem, são até piores que antigos...
O raio do sol sopra! Quero a ardência da estrada e o medo do efêmero novo...
Não a tortura do temperamento abafado das vidraças mosaicas, cheias de história e paródia clichê, que grelham carne em oitavo pecado capital ou nona sinfonia clássica do poeta surdo...
Arcadismos rendidos são a trilha sonora, claro...
Afinal, arte pela arte é coisa de gente louca...
Ajoelham-se como Madalenas prostadas à serviço!
Abrem suas bocas puras e recebem o canibalismo secular – de sangue e de corpo e de “espírito” –
Saem do ritual alegrinhos e chegam em casa de fígados sobrecarregados e culpas pesadas nas costas... E acabam ganhando algumas mais...
O ciclo se cumpre, periódicamente...
Oh! Me ponho a dizer: “Se é acrática a concepção, a única púnica culpa é justa!”
Da minha língua, nenhuma destas bitucas de cigarros apagados não-por-mim, saca, entende, ou comenta sobre...Língua de poeta ébrio, louco como dizem...
Só as línguas manchadas pelo etanol, pelo propinol, pelo tal-tal produto de industria farmacêutica que não sei nomear, que não sei dizer sobre... Línguas manchadas entendem línguas manchadas...
Serei a língua podre do difunto moribundo desbundando do caos e fazendo loucuras nas correrias das estradas e estradas e estradas que não fazem – nem nunca fizeram – tanto sentido... Como pena flutuante, diria, como bobagem que se diz e não se lembra...
Como ser um pedaço de universo, preenchendo suas lacunas com o blues do lacrimoso, o jazz do swingado, o folk do inspirado e a ausência do impiedoso...
Esses eletrodomésticos não calam a boca! Vivem com suas radioatividades baixas e tão letalmente inertes e irrelevantes...
Nem sequer me dão um câncer!
Me poupem do discurso pieguisse-sobre-pieguisse e igrejas e padres e jesus e nadas...
Diria que existe um murro na parede para cada tijolinho laranja que se prosta nas paredes góticas, romanas, postólico-romanas! Ou simplesmente venenos contemporâneos... Acreditem, são até piores que antigos...
O raio do sol sopra! Quero a ardência da estrada e o medo do efêmero novo...
Não a tortura do temperamento abafado das vidraças mosaicas, cheias de história e paródia clichê, que grelham carne em oitavo pecado capital ou nona sinfonia clássica do poeta surdo...
Arcadismos rendidos são a trilha sonora, claro...
Afinal, arte pela arte é coisa de gente louca...
Ajoelham-se como Madalenas prostadas à serviço!
Abrem suas bocas puras e recebem o canibalismo secular – de sangue e de corpo e de “espírito” –
Saem do ritual alegrinhos e chegam em casa de fígados sobrecarregados e culpas pesadas nas costas... E acabam ganhando algumas mais...
O ciclo se cumpre, periódicamente...
Oh! Me ponho a dizer: “Se é acrática a concepção, a única púnica culpa é justa!”
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Heróis da Linha Torta
Meus heróis não usam espadas,
Nem armas impregnadas de pólvora.
Suas lâminas implacavelmente forjadas
Atingem o peito, sem demora.
Suas balas voam oníricas em asas.,
Atingem e queimam as vísceras da alma.
E vos peço que tenham calma,
Pois aquecem e ferem as impetuosas brasas.
Meus heróis não vem de exércitos nem de barricadas,
Não são guerreiros treinados por nada
Além das crateras e deformidades da estrada
Que se segue, se seguiu e se seguirá.
Estão nas mansões, nos sanatórios, nos bares...
E, solitários com seus cigarros,
Externam pedaços d’alma impares,
Compostos de lógicas, atmosferas, ascos...
Meus heróis são como coringas do baralho:
Bufões saltitantes sem função específica
Em meio a potências altas e baixas do carteado,
Sacados aleatoriamente para mostrar sua magia.
São instrumentos que ecoam no hall da vida,
Rendidos voluntariamente a seus músicos abstratos
Que os manipulam com certo carinho e certo maltrato,
E são mais conhecidos como poesias.
Meus heróis são mestres da polêmintriga
E não estão nem de um lado nem de outro da moeda.
Na verdade, estão bem longe dela...
Não observam através da lente... São lentes!
Não usam pentes,
São bagunçados alucinados.
São gente indecente, (in)fluentes,
Rochas crucificadas.
Meus heróis são artistas – da vida e do nada,
Ousadias que põem a mão na merda.
Malabaristas que engolem a ponta da espada;
Revolucionários, malditos e subjulgados
Por muitas lentes opacas-cegas que os observam.
Nem armas impregnadas de pólvora.
Suas lâminas implacavelmente forjadas
Atingem o peito, sem demora.
Suas balas voam oníricas em asas.,
Atingem e queimam as vísceras da alma.
E vos peço que tenham calma,
Pois aquecem e ferem as impetuosas brasas.
Meus heróis não vem de exércitos nem de barricadas,
Não são guerreiros treinados por nada
Além das crateras e deformidades da estrada
Que se segue, se seguiu e se seguirá.
Estão nas mansões, nos sanatórios, nos bares...
E, solitários com seus cigarros,
Externam pedaços d’alma impares,
Compostos de lógicas, atmosferas, ascos...
Meus heróis são como coringas do baralho:
Bufões saltitantes sem função específica
Em meio a potências altas e baixas do carteado,
Sacados aleatoriamente para mostrar sua magia.
São instrumentos que ecoam no hall da vida,
Rendidos voluntariamente a seus músicos abstratos
Que os manipulam com certo carinho e certo maltrato,
E são mais conhecidos como poesias.
Meus heróis são mestres da polêmintriga
E não estão nem de um lado nem de outro da moeda.
Na verdade, estão bem longe dela...
Não observam através da lente... São lentes!
Não usam pentes,
São bagunçados alucinados.
São gente indecente, (in)fluentes,
Rochas crucificadas.
Meus heróis são artistas – da vida e do nada,
Ousadias que põem a mão na merda.
Malabaristas que engolem a ponta da espada;
Revolucionários, malditos e subjulgados
Por muitas lentes opacas-cegas que os observam.
Da Tela ao Céu Manchado
A tela colorida comeu meu cérebro.
Maquinou os sonhos e engendrou ilusões vãs cheias pus e poesia,
Rotulou minha nuca e me jogou num armazém sujo e cheio de ratos gotejantes...
Fiquei no galpão alguns meses...
Me alimentaram bem, me jogaram numa poça de gente estagnada...
Me cortaram pedaços, encheram de flavorisantes, conservantes, colorantes, e me vestiram
Com vestes de palhaço pra alegrar crianças com síndrome de down...
Rastejei, poça suja a poça suja, pra fora daquele galpão...
Aleijado, rolei pela grama e me enchi de coisas orgânicas...
Capenguei pelos etílicos, flutuei pelas nuvens branco-acizentadas...
Vi poeira e areia sintetizarem animais epiléticos palpitando em buracos rasos...
Rolei... Rolei por ai... Criei pedaços novos com papéis de jornal e papelão,
Virei uma salada de peças soltas – com um gosto agridoce temperado com ácido...
Aprendi a grunhir formigas... Depois peixes, tartarugas... Rosas artificialmente coloridas...
Até enfim vomitar asas que gritam violões para platéias mancas...
(...)
Vomito asas, alguns usam como muletas, outros como drogas...
...Alguns como deveriam ser usadas: Sem manual de instruções.
Maquinou os sonhos e engendrou ilusões vãs cheias pus e poesia,
Rotulou minha nuca e me jogou num armazém sujo e cheio de ratos gotejantes...
Fiquei no galpão alguns meses...
Me alimentaram bem, me jogaram numa poça de gente estagnada...
Me cortaram pedaços, encheram de flavorisantes, conservantes, colorantes, e me vestiram
Com vestes de palhaço pra alegrar crianças com síndrome de down...
Rastejei, poça suja a poça suja, pra fora daquele galpão...
Aleijado, rolei pela grama e me enchi de coisas orgânicas...
Capenguei pelos etílicos, flutuei pelas nuvens branco-acizentadas...
Vi poeira e areia sintetizarem animais epiléticos palpitando em buracos rasos...
Rolei... Rolei por ai... Criei pedaços novos com papéis de jornal e papelão,
Virei uma salada de peças soltas – com um gosto agridoce temperado com ácido...
Aprendi a grunhir formigas... Depois peixes, tartarugas... Rosas artificialmente coloridas...
Até enfim vomitar asas que gritam violões para platéias mancas...
(...)
Vomito asas, alguns usam como muletas, outros como drogas...
...Alguns como deveriam ser usadas: Sem manual de instruções.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Uma Forja de Memento
A manhã raiou impiedosa, rompendo com o frio furioso da madrugada. Os ventos se acalmaram, as lágrimas pararam de cair. Efêmero levantou-se de sua cama, lavou o rosto, ligou o aparelho de som e escutou uma música qualquer.
Acendeu um cigarro, colocou algumas roupas e parou diante da janela, em devaneio:
- O que há de estático nesta existência? Nem os dias são os mesmos, nem as nuvens são as mesmas... Há dias de humores tépidos, gélidos ou incendiários, como nós criaturas passadas... As mesmas águas não hão de correr os mesmos rios, nem as mesmas lágrimas hão de cair dos mesmos olhos, nem as dores serão as mesmas dos corações dilacerados...
Tragava pesadamente seu cigarro enquanto fitava o dançar das nuvens diante do vento da manhã. Estava praticamente como uma estátua-viva viciada em nicotina.
Levou o cigarro a sua frente, e falou sozinho com um sorriso no rosto:
- Jamais serão as mesmas fumaças dos mesmos cigarros, nem os mesmos sabores das mesmas bebidas que bebemos até não sentirmos seus sabores...
Afogou o cigarro no cinzeiro.
Ouviu alguém bater em sua porta enquanto escovava os dentes. Gritou para que entrasse. Ouviu os passos irem até o pequeno quarto e nenhuma palavra.
Terminou sua higiene bucal e foi até o quarto. Era Musa que se sentava em sua cama olhando-o com um olhar insano esboçado em sua face ebúrnea de sorriso infante.
Ela segurava uma garrafa de vinho e parecia não ter dormido ainda.
Disse, com um sorriso:
- Fiquei pensando em quem tomaria vinho comigo às sete da manhã.
A face de Musa esboçava um nítido sorriso falso, ao vê-la, Efêmero não sabia se iria rir ou chorar. Pegou a garrafa de vinho e disse:
- Você não dormiu ainda. Você acordada uma hora dessas é algo intransponível.
Musa sorriu bebadamente:
- Hah, como você é observador. Só vim fazer um último gesto, e você é o único acordado agora.
- Ultimo gesto? Do que você está falando afinal de contas?
- Eu vim me despedir.
Efêmero levou uma guinada, e não soube por quê. Musa era apenas mais uma colega com a qual conversava nos corredores da faculdade, ou que bebia e cantava nos luais ocorrentes. Não era de fato alguém que lembraria afinal de contas.
Porém, foi afetado, de fato, pela notícia. Deu um gole na garrafa de vinho e perguntou:
- Mas o que houve? Porque você vai embora assim tão de repente? Vai desistir de tudo antes de começar?
Musa retorceu seu sorriso, como se partisse de comédia a tragédia em menos de um segundo. Engoliu parte da garrafa, acendeu um cigarro e disse:
- Sabe que é engraçado. Agora que irei deixar todo este destino para trás, sei realmente como as coisas nada são senão vários capítulos de um livro. Duram por um tempo, e quando menos esperamos, acabam. Para que a história continue, precisamos passar para o próximo, sem ter dó de virar páginas e deixar para trás os cenários e personagens que tanto amamos.
- Mas porque você vai desistir agora? Ainda temos tanta coisa pela frente, tantos momentos para viver aqui, tanto conhecimento para adquirir, tanto a chorar, tanto a rir!
Porque vai desistir do seu sonho assim?
Efêmero não acreditou em suas palavras, que tão emocionadas, porém, não pareciam tocar Musa, que agora mostrava um sorriso sereno enquanto olhava para janela do quarto, vendo o azul se estabelecer.
Musa respondeu:
- Já realizei meu sonho, agora preciso realizar outros. Ainda tem muita coisa nesse mundo que quero conhecer, muitas músicas e poemas diferentes, cantados e declamados por diversos intérpretes diferentes. Quero ver tanta coisa que ainda não conheço, que preciso ficar em mais de um lugar ao mesmo tempo!
O silêncio tomou o ambiente. Efêmero notou que não conseguiria convencer Musa, eram parecidos neste aspecto. Ambos observavam pela janela o Sol subir cada vez mais no horizonte. Este momento foi o momento mais próximo que estiveram juntos, dentro de todo aquele cotidiano, de todas as vezes, que se viram, durante todos os dias. Ambos sorriam e olhavam para o mesmo céu simultaneamente.
Efêmero sentou-se ao lado de Musa, que afogava seu cigarro no cinzeiro, olhou para o teto e disse:
- Sabe, acho que eu jamais me lembraria de ti se não fosse por este momento. Agora acho que jamais me esquecerei deste momento. Que jamais tomarei vinho de manhã mais uma vez sem lembrar-te, que jamais me esquecerei da maneira louca que você cantava nos luais depois de várias doses de vodka.
- Por isso um último gesto, para levar comigo um gesto de alguém, de você, pra que eu me lembre de tudo de belo que vivi durante estes poucos meses por aqui. Um último rosto, um ultimo sorriso pra associar a todos que vi sorrir, a tudo que fez sorrir enquanto estive nesse sonho.
Olhavam-se com empatia, como se começassem a apaixonar-se. Aquele momento expressou a sensação de acolhimento, de compreensão que ambos procuravam. Pois a única conclusão é a de que tudo que queremos é alguém próximo de nós no final dos ciclos.
Alguém, não importa exatamente quem, mas alguém para carregar uma memória e deixar uma em seu lugar.
Efêmero nunca havia sentido aquela espécie de emoção por alguém antes. Era como se o universo se desconstruísse e a ilusão fizesse mais sentido que a realidade. Olhando pela janela, disse:
- Nem os dias são os mesmos, nem as nuvens são as mesmas...
Musa respondeu:
- E os beijos mais belos são aqueles que não aconteceram.
- Como assim? Indagou Efêmero.
- Os beijos mais belos são aqueles que não aconteceram, por isso não irei beijar teus lábios nesta manhã. Por isso jamais provarás meus lábios, para que se lembre a tentação de tê-los enquanto lembro a tentação dos teus.
- Você jamais irá possuir meus lábios, e eu jamais os teus. Com isso, jamais me esquecerei de ti.
Efêmero estava estático, não sabia como reagir a tal situação.
Musa riu, deu um beijo tranqüilo na testa de Efêmero e disse com um sorriso:
- Adeus.
Saia andando quando Efêmero disse de súbito:
- Até mais.
Musa parou, respondeu com um sorriso retorcido:
- Até mais? Não nos veremos mais,
Efêmero disse em esperança vã e olhos opacos:
- Ainda nos veremos algum dia... Em algum lugar...
Musa olhou na profundidade dos olhos de Efêmero e esboçou seu ultimo sorriso sarcástico:
- Nem os dias são os mesmos, nem as nuvens são as mesmas... Boa sorte, Efêmero.
E saiu andando lentamente pela porta, como se já não estivesse mais ali.
Efêmero nunca mais a viu, e nunca a esqueceu.
Acendeu um cigarro, colocou algumas roupas e parou diante da janela, em devaneio:
- O que há de estático nesta existência? Nem os dias são os mesmos, nem as nuvens são as mesmas... Há dias de humores tépidos, gélidos ou incendiários, como nós criaturas passadas... As mesmas águas não hão de correr os mesmos rios, nem as mesmas lágrimas hão de cair dos mesmos olhos, nem as dores serão as mesmas dos corações dilacerados...
Tragava pesadamente seu cigarro enquanto fitava o dançar das nuvens diante do vento da manhã. Estava praticamente como uma estátua-viva viciada em nicotina.
Levou o cigarro a sua frente, e falou sozinho com um sorriso no rosto:
- Jamais serão as mesmas fumaças dos mesmos cigarros, nem os mesmos sabores das mesmas bebidas que bebemos até não sentirmos seus sabores...
Afogou o cigarro no cinzeiro.
Ouviu alguém bater em sua porta enquanto escovava os dentes. Gritou para que entrasse. Ouviu os passos irem até o pequeno quarto e nenhuma palavra.
Terminou sua higiene bucal e foi até o quarto. Era Musa que se sentava em sua cama olhando-o com um olhar insano esboçado em sua face ebúrnea de sorriso infante.
Ela segurava uma garrafa de vinho e parecia não ter dormido ainda.
Disse, com um sorriso:
- Fiquei pensando em quem tomaria vinho comigo às sete da manhã.
A face de Musa esboçava um nítido sorriso falso, ao vê-la, Efêmero não sabia se iria rir ou chorar. Pegou a garrafa de vinho e disse:
- Você não dormiu ainda. Você acordada uma hora dessas é algo intransponível.
Musa sorriu bebadamente:
- Hah, como você é observador. Só vim fazer um último gesto, e você é o único acordado agora.
- Ultimo gesto? Do que você está falando afinal de contas?
- Eu vim me despedir.
Efêmero levou uma guinada, e não soube por quê. Musa era apenas mais uma colega com a qual conversava nos corredores da faculdade, ou que bebia e cantava nos luais ocorrentes. Não era de fato alguém que lembraria afinal de contas.
Porém, foi afetado, de fato, pela notícia. Deu um gole na garrafa de vinho e perguntou:
- Mas o que houve? Porque você vai embora assim tão de repente? Vai desistir de tudo antes de começar?
Musa retorceu seu sorriso, como se partisse de comédia a tragédia em menos de um segundo. Engoliu parte da garrafa, acendeu um cigarro e disse:
- Sabe que é engraçado. Agora que irei deixar todo este destino para trás, sei realmente como as coisas nada são senão vários capítulos de um livro. Duram por um tempo, e quando menos esperamos, acabam. Para que a história continue, precisamos passar para o próximo, sem ter dó de virar páginas e deixar para trás os cenários e personagens que tanto amamos.
- Mas porque você vai desistir agora? Ainda temos tanta coisa pela frente, tantos momentos para viver aqui, tanto conhecimento para adquirir, tanto a chorar, tanto a rir!
Porque vai desistir do seu sonho assim?
Efêmero não acreditou em suas palavras, que tão emocionadas, porém, não pareciam tocar Musa, que agora mostrava um sorriso sereno enquanto olhava para janela do quarto, vendo o azul se estabelecer.
Musa respondeu:
- Já realizei meu sonho, agora preciso realizar outros. Ainda tem muita coisa nesse mundo que quero conhecer, muitas músicas e poemas diferentes, cantados e declamados por diversos intérpretes diferentes. Quero ver tanta coisa que ainda não conheço, que preciso ficar em mais de um lugar ao mesmo tempo!
O silêncio tomou o ambiente. Efêmero notou que não conseguiria convencer Musa, eram parecidos neste aspecto. Ambos observavam pela janela o Sol subir cada vez mais no horizonte. Este momento foi o momento mais próximo que estiveram juntos, dentro de todo aquele cotidiano, de todas as vezes, que se viram, durante todos os dias. Ambos sorriam e olhavam para o mesmo céu simultaneamente.
Efêmero sentou-se ao lado de Musa, que afogava seu cigarro no cinzeiro, olhou para o teto e disse:
- Sabe, acho que eu jamais me lembraria de ti se não fosse por este momento. Agora acho que jamais me esquecerei deste momento. Que jamais tomarei vinho de manhã mais uma vez sem lembrar-te, que jamais me esquecerei da maneira louca que você cantava nos luais depois de várias doses de vodka.
- Por isso um último gesto, para levar comigo um gesto de alguém, de você, pra que eu me lembre de tudo de belo que vivi durante estes poucos meses por aqui. Um último rosto, um ultimo sorriso pra associar a todos que vi sorrir, a tudo que fez sorrir enquanto estive nesse sonho.
Olhavam-se com empatia, como se começassem a apaixonar-se. Aquele momento expressou a sensação de acolhimento, de compreensão que ambos procuravam. Pois a única conclusão é a de que tudo que queremos é alguém próximo de nós no final dos ciclos.
Alguém, não importa exatamente quem, mas alguém para carregar uma memória e deixar uma em seu lugar.
Efêmero nunca havia sentido aquela espécie de emoção por alguém antes. Era como se o universo se desconstruísse e a ilusão fizesse mais sentido que a realidade. Olhando pela janela, disse:
- Nem os dias são os mesmos, nem as nuvens são as mesmas...
Musa respondeu:
- E os beijos mais belos são aqueles que não aconteceram.
- Como assim? Indagou Efêmero.
- Os beijos mais belos são aqueles que não aconteceram, por isso não irei beijar teus lábios nesta manhã. Por isso jamais provarás meus lábios, para que se lembre a tentação de tê-los enquanto lembro a tentação dos teus.
- Você jamais irá possuir meus lábios, e eu jamais os teus. Com isso, jamais me esquecerei de ti.
Efêmero estava estático, não sabia como reagir a tal situação.
Musa riu, deu um beijo tranqüilo na testa de Efêmero e disse com um sorriso:
- Adeus.
Saia andando quando Efêmero disse de súbito:
- Até mais.
Musa parou, respondeu com um sorriso retorcido:
- Até mais? Não nos veremos mais,
Efêmero disse em esperança vã e olhos opacos:
- Ainda nos veremos algum dia... Em algum lugar...
Musa olhou na profundidade dos olhos de Efêmero e esboçou seu ultimo sorriso sarcástico:
- Nem os dias são os mesmos, nem as nuvens são as mesmas... Boa sorte, Efêmero.
E saiu andando lentamente pela porta, como se já não estivesse mais ali.
Efêmero nunca mais a viu, e nunca a esqueceu.
Qualificações:
crônica,
existência,
memória
domingo, 29 de maio de 2011
Ele Carregava Cacos
Ele carregava cacos,
Vermelhos como pétalas de rosas,
Vermelhos como sangue,
Escarlate gritante na calada da noite.
Ele carregava cacos
Que, quando ele respirava,
Flutuavam dentro de sua caixa torácica,
Cortando-o, dilacerando-o internamente
Em brutal agonia.
Ele carregava cacos,
E um dia ousou retira-los.
Empunhou-se de um alicate e uma faca
Para tornar sua inóspita caixa torácica
Algo além disso.
Ele removeu seus cacos,
Deixando vazia sua caixa torácica.
Esta, de tão torturada, de tão dilacerada,
Já não conseguiu acolher mais ninguém.
Vermelhos como pétalas de rosas,
Vermelhos como sangue,
Escarlate gritante na calada da noite.
Ele carregava cacos
Que, quando ele respirava,
Flutuavam dentro de sua caixa torácica,
Cortando-o, dilacerando-o internamente
Em brutal agonia.
Ele carregava cacos,
E um dia ousou retira-los.
Empunhou-se de um alicate e uma faca
Para tornar sua inóspita caixa torácica
Algo além disso.
Ele removeu seus cacos,
Deixando vazia sua caixa torácica.
Esta, de tão torturada, de tão dilacerada,
Já não conseguiu acolher mais ninguém.
Qualificações:
existência,
poesia,
romance
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