segunda-feira, 23 de abril de 2012

Um Nariz de Palhaço

Me deram um nariz de palhaço
E eu não sabia
Se era uma piada de mal-gosto,
Pura ironia,
Ou se era um incentivo, uma prece,
Um incêndio de alegria.

Me deram um nariz de palhaço
E eu não tinha uma máscara.
Então fitei o espelho,
E encarei profundamente meu nariz vermelho.

Eu não sabia se eu era ou não a piada.
Se era possivelmente o piadista.
Então encarei novamente
O espelho que refletia
E comecei a rir da minha própria cara.

domingo, 8 de abril de 2012

Coragem de Saltimbanco

Acho que faltam olhos.
Olhos para ver o que não se vê.
Nesse mundo moderno, apressado, as pessoas correm olhando para frente
Sem caminhar olhando para cima e para os lados.
Mais parecem cavalos...

Acho que faltam dedos corajosos
Que consigam apontar as feridas que ainda doem em todos...
Falta gente corajosa para olhar dentro dos olhos dos outros.

Falta gente corajosa para tirar os óculos
E deixar de ver com lentes.
Ver com os próprios olhos.
E empatia para acariciar o sentimento,
Amá-lo e leva-lo para cama
Ao invés de enterrá-lo em medo e desalento.

Acho que ser poeta é ter coragem de encarar a si,
De escutar os gritos dos olhos
De lutar com a folha em branco
De lutar contra a folha em branco

Ser poeta é ter a coragem de ser um saltimbanco.

Por Renê B. Echeverria e Beatriz Porto

terça-feira, 20 de março de 2012

O Naufrágio de Uma Noite (Ósculos Ácidos Artificiais)

Todas as garrafas estavam no chão, acompanhadas de um oceano de bitucas de cigarro e cinzas... Todos boiavam naquela superfície de águas de prazer artificial, de olhos fechados e rostos distorcidos – sendo impossível descrever o que sentiam – perdidos em proa num náufrago decadente.
O cargueiro que carregava todas aquelas mercadorias sem-valor fora atacado por uma tempestade insólita de vinho, conhaque e cerveja. Chovia intensamente, as nuvens eram moldadas pela fumaça tragada por piratas que dançavam com sereias cruéis e sedutoras.
Corpos boiavam amortecidos, dormentes... Copos vazios encaravam dementes... Pensavam em se mover, porém não conseguiam... Pensavam em nadar, pensavam em se afogar, pensavam em atingir o fundo do mar... Pensavam em pensar... Era inútil tentar voar sem asas, nadar sem respirar.
A alegria havia deixado o convés. Mal se sabe como ou por onde, afinal, ela não sabia nadar, não sabia voar, muito menos remar num bote salva-vidas. A alegria era débil, deficiente, deformada e impotente. Era uma adicta às tempestades ébrias que banhavam poesias pobres de poetas podres...
(...)
Havia amanhecido. Remanesciam todos, como páginas de poema que perdeu a tinta, molhadas, prestes a se desfazer. Apoiavam-se nos pedaços de madeira daquele grande e belo navio insensato. Oh! Aquele grande e belo navio insensato! Ele navegava pelas mais belas ondas tempestuosas com tanta graça, com tanto clamor às coisas meramente escondidas dentro de cada ser desgraçado pela graça de existir!
Era como se uma viajem fosse resolver ou dissolver todos os dilemas, todas as situações e problemas da existência tácita e ebúrnea. Como um avião a jato comprado, carregando todo tipo de objetivação existente como combustível, voando e nadando quimicamente, sem que houvesse o menor sentido para leis da natureza e todas as ciências que aqueles passageiros embarcados nunca iriam – e nem queriam – compreender.
Existiam suas ilusões, assim se confundiam passageiros com a gasolina que não era nada – nada! – convencional.
Queimavam-se, consumiam-se, pouco a pouco, até não restar nada além de cinzas e fumaça.
Tinham esperança enquanto se encontravam a navegar, a voar... Tinham um destino que nunca pretendiam alcançar - o destino pouco importava -. O prazer estava no caminho destas ondas líricas e não na ilha do suposto tesouro vigente. O sonho lúcido se desfazia enquanto a mente acordada corria e corria e corria, o corpo morto e morno se debatia, as pupilas dilatadas amanheciam.
E o calor queimava atroz o olho vil. Eram pessoas tortas, tortuosas, torturadas... Almas penadas dando socos na rotina. Errantes e impossíveis tentavam se libertar de seculares dicotomias. Eram inóspitos vivendo pedaços de céu num inferno ensolarado.
Beijavam a morte pouco a pouco em preliminares. Ósculos ácidos artificiais.
Tudo que havia era celebrar a vida e beber caixões. Cultuadores da morte e da vida, e não queriam dormir... Pois não queriam acordar.
- Pois não havia cura para realidade demais. Não havia cura para esta coisa vivaz que era a melancolia. Não havia tanta esperança de paz nos beijos das ondinas.

Versos de Corpo-Tela

E manco. E ando e carrego, como cargueiro perdido nas águas manchadas de petróleo.
E carrego no meu colo palavras da boca e corpo,
As rodopio nos meus ombros,
Manchando de sangue, compartilhando vísceras de meu viscerar humano.
E sangro, e canto, e as manchas são o pranto
Tingido na pele, manchado no pano.

O suspiro rouco, exausto, é pouco.
A coagulação na garganta é uma dança macabra,
Um espetáculo grotesco dum banquete de vinho.
- O vinho que torna ébrio. O vinho que é suposto sangue de cristo –
O vinho que é um misto! Era o visco encima de nós!
E tudo foi um obelisco honrado aos céus!
O vinho era um pedaço de voz
Gotejando com um cortejo ao chão.
Um pedaço de corpo, de cada dia o pão!
E a sanidade insana de tanto tempo, pranto,
E do afago da tua mão.

Um fardo pardo de mãos dadas ao chão.
Um largo sonho, um pedaço de mão.
Dos lábios a graça,
Dos olhos a tinta e a inspiração.
Uma caneta nos teus olhos, meu tinteiro-paixão,
Vou escrever no teu corpo pálido como tela
Um romance que nunca aconteceu.
E pintar nos teus lábios, com minha boca,
O carinho de uma mãe ao embrião que morreu.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Estrelas Em Meu Teto

Teu palor em meu sangue
Teu calor distante
Teu olhar atrás dos meus.

Minhas pálpebras perseguindo nuvens,
Espelhos alheios refletem o rosto teu.
Espelhos no céu...
Teus olhos são estrelas em meu teto.

Enquanto reflito, enquanto reflexo,
Enquanto desmaio no chão desconexo
Brilham e olham para mim dentro do escuro.

Grita o peito dentro do absurdo.
O cheiro macio, janelas para o mundo,
E o toque sem toque,
E um cigarro na madrugada,
Os olhos são mudos.
As lágrimas cálidas estão caladas.

E não irei tentar dormir,
Pois o onírico já não é meu companheiro.
Pois te vejo no teto do meu mundo,
Nas estrelas de meu quarto,
Meu sonho distante e lúcido.

A noite está nublada,
E as estrelas estão tímidas.
Os olhos perseguem dentro do avermelhado,
E tudo está escuro.

Não há como, não agora.
As estrelas somem e o teto desaba,
O poeta desmaia na noite de lua nova.

E agora o mundo expande e o peito aperta.
Uma sensação de oco, de pouco,
Uma sensação de nada.

E os olhos caçam estrelas na noite nublada,
O inverno um dia irá passar
E as estrelas ainda darão as caras...

E ainda iremos nos encontrar.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Esfinges e Faraós

Enquanto a reputação é um filtro
A fala é muda, o silêncio é grito.
Enquanto são construídas famigeradas esfinges sem nariz
E esculturas sem braços e sem brado.

E sorrisos estáticos, simpáticos, de plástico,
Propagando a propaganda enganosa
Do mesmo marketing desenfreado.

Enquanto se segue, forjando próteses de aço,
Muletas de olhos impiedosos e ameaçadores,
Glíteres de unhas postiças, cintilando o mármore
Que escorre do monumento alheio.

Enquanto se erguem as belas muralhas,
Para proteger o continente dos mongóis.
Enquanto cantam as gralhas
Em lâmpadas de 110 volts.

Enquanto a reputação é um filtro
A fala é muda, o silêncio é grito.
E o tesouro da esfinge, o túmulo do faraó
De tantas armadilhas
Chega a parecer um mito
De tão escondido.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Violão

Um cigarro, um violão, um pedaço de chão.
Aquelas coisas estranhas de cidadão.
Olhando para o céu, andando na contra mão,
Uma composição por um pedaço de pão.

Na sacola a fumaça da marola
Na cantiga um pedaço de razão
Na loucura estranha de hoje em dia
Os pés para o alto, a cabeça para o chão.

Aquele paraplégico que não sabia andar
Nos números imundos da civilização
Bebeu cachaça, e sem dar nenhuma pala.
Conheceu, na decadência, mais um irmão.

Não sabia de muito além de sua graça,
Seu colchão era seu violão.
O sol impiedoso batia na estrada
O suor era quase um vilão.

Achavam que era teimosia,
Não trabalhar, não ganhar e nem gastar na loja.
Mas o poeta barbudo não era besta e dizia:
-Não é hipocrisia, nem loucura
O gosto das moedas me enoja.
Meu trabalho é para com a vida.