terça-feira, 20 de março de 2012

Versos de Corpo-Tela

E manco. E ando e carrego, como cargueiro perdido nas águas manchadas de petróleo.
E carrego no meu colo palavras da boca e corpo,
As rodopio nos meus ombros,
Manchando de sangue, compartilhando vísceras de meu viscerar humano.
E sangro, e canto, e as manchas são o pranto
Tingido na pele, manchado no pano.

O suspiro rouco, exausto, é pouco.
A coagulação na garganta é uma dança macabra,
Um espetáculo grotesco dum banquete de vinho.
- O vinho que torna ébrio. O vinho que é suposto sangue de cristo –
O vinho que é um misto! Era o visco encima de nós!
E tudo foi um obelisco honrado aos céus!
O vinho era um pedaço de voz
Gotejando com um cortejo ao chão.
Um pedaço de corpo, de cada dia o pão!
E a sanidade insana de tanto tempo, pranto,
E do afago da tua mão.

Um fardo pardo de mãos dadas ao chão.
Um largo sonho, um pedaço de mão.
Dos lábios a graça,
Dos olhos a tinta e a inspiração.
Uma caneta nos teus olhos, meu tinteiro-paixão,
Vou escrever no teu corpo pálido como tela
Um romance que nunca aconteceu.
E pintar nos teus lábios, com minha boca,
O carinho de uma mãe ao embrião que morreu.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Estrelas Em Meu Teto

Teu palor em meu sangue
Teu calor distante
Teu olhar atrás dos meus.

Minhas pálpebras perseguindo nuvens,
Espelhos alheios refletem o rosto teu.
Espelhos no céu...
Teus olhos são estrelas em meu teto.

Enquanto reflito, enquanto reflexo,
Enquanto desmaio no chão desconexo
Brilham e olham para mim dentro do escuro.

Grita o peito dentro do absurdo.
O cheiro macio, janelas para o mundo,
E o toque sem toque,
E um cigarro na madrugada,
Os olhos são mudos.
As lágrimas cálidas estão caladas.

E não irei tentar dormir,
Pois o onírico já não é meu companheiro.
Pois te vejo no teto do meu mundo,
Nas estrelas de meu quarto,
Meu sonho distante e lúcido.

A noite está nublada,
E as estrelas estão tímidas.
Os olhos perseguem dentro do avermelhado,
E tudo está escuro.

Não há como, não agora.
As estrelas somem e o teto desaba,
O poeta desmaia na noite de lua nova.

E agora o mundo expande e o peito aperta.
Uma sensação de oco, de pouco,
Uma sensação de nada.

E os olhos caçam estrelas na noite nublada,
O inverno um dia irá passar
E as estrelas ainda darão as caras...

E ainda iremos nos encontrar.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Esfinges e Faraós

Enquanto a reputação é um filtro
A fala é muda, o silêncio é grito.
Enquanto são construídas famigeradas esfinges sem nariz
E esculturas sem braços e sem brado.

E sorrisos estáticos, simpáticos, de plástico,
Propagando a propaganda enganosa
Do mesmo marketing desenfreado.

Enquanto se segue, forjando próteses de aço,
Muletas de olhos impiedosos e ameaçadores,
Glíteres de unhas postiças, cintilando o mármore
Que escorre do monumento alheio.

Enquanto se erguem as belas muralhas,
Para proteger o continente dos mongóis.
Enquanto cantam as gralhas
Em lâmpadas de 110 volts.

Enquanto a reputação é um filtro
A fala é muda, o silêncio é grito.
E o tesouro da esfinge, o túmulo do faraó
De tantas armadilhas
Chega a parecer um mito
De tão escondido.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Violão

Um cigarro, um violão, um pedaço de chão.
Aquelas coisas estranhas de cidadão.
Olhando para o céu, andando na contra mão,
Uma composição por um pedaço de pão.

Na sacola a fumaça da marola
Na cantiga um pedaço de razão
Na loucura estranha de hoje em dia
Os pés para o alto, a cabeça para o chão.

Aquele paraplégico que não sabia andar
Nos números imundos da civilização
Bebeu cachaça, e sem dar nenhuma pala.
Conheceu, na decadência, mais um irmão.

Não sabia de muito além de sua graça,
Seu colchão era seu violão.
O sol impiedoso batia na estrada
O suor era quase um vilão.

Achavam que era teimosia,
Não trabalhar, não ganhar e nem gastar na loja.
Mas o poeta barbudo não era besta e dizia:
-Não é hipocrisia, nem loucura
O gosto das moedas me enoja.
Meu trabalho é para com a vida.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Programação Do Dia

Vida efêmera na tela,
Correm, voam, rastejam enfumaçando a atmosfera.
Concreto, reboco, arame farpado correndo,
Correndo montando o quadro, lado a lado.

As tintas, as revistas, as cores manchadas e encardidas,
E os bancos, e os prantos cinzas
Parecem crianças brincando na construção
Enquanto as minhocas de ferro voam no chão.

As flores gritam mudas, diante da luz cinza.
Um caule, um tronco rompe o cascalho e a calçada cria feições.
Rios choram em dialetos, em bordas adornadas de veias rotas,
Desaguam em tubos, em turnos de perfeições.

Anjos de ferro guardam, flutuando em arames, as estradas de alumínio.
Cantam uma melodia imperial os corais sintéticos.
Enquanto ovelhas desgarradas andam com suas tralhas
Ensacadas, errantes pelas vias, sem olhar para os dois lados
Antes de atravessar a rua.

São pedaços de cenário,
Árvores cenográficas chorando folhas mortas
Num outono sem vento.

Todos sorriem e distribuem seus mimos.
E riem e suspiram nuvens cinza em desatino.
Simpatias aos mitos!
Gritam três vezes aos ritos!:
Amém, amém, amém!
Amem, amem, amem!...
...E tudo volta ao normal.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Sopro Distante

Meu apreço exaurido e distante
Percorre horizontes em tua busca
Tão incerta, tão incessante.

Eu nado sozinho, e neste nada
Obstinado, caminho, andarilho vago.
Pintando manchas num quadro abstrato.

E grito, não de desespero,
Mas como sopro uma pena
Para que o vento a carregue
E a deixe ao teu lado.

Que ela te acaricie
Antes de dormir.
Ou te de bom dia
Quando teus olhos romperem a areia.

Que ela te toque
Nos momentos que não posso
E escreva versos belos em tua pele
Que, quem me dera, como ator,
Logo eu leia, logo eu viva
Em vivencia teatral
Em vivencia real.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A Balada Do Poeta Ébrio II (Grito!)

Grito pelas poesias paraplégicas que não conseguem andar com as próprias pernas.
Pelas máscaras trincadas e manchadas de suor e sangue de poeta.
Gritos às margens da ilusão da liberdade marginalizada.
Grito porque não sou um homem-máquina!

Porque sinto, não dor, mas luta.
E grito enrolado, em voz distorcida, ébrio da bela arte que proponho a mim!
Da arte que sou e que faço de meu ser.

E as coisas continuam as mesmas, embora não pareçam.
O outdoor na rua mostra apenas uma sutura superficial, opaca e substituída a cada semana
Dentro d’um efêmero movimento de ferrugem.

Lubrificados por ilusões que desviam os olhos secos,
Os estáticos globos de glóbulos que já nem tentam lutar contra uma patologia viral estampada na face.

Tendem a não notar o que está como trapezista, malabareando na ponta do nariz.
É o palhaço maquiado em pixels, na tela plana de alta definição.
Eu grito contra ele! Eu jogo a caixa colorida pela janela!

Eu grito porque sou artista, e não tenho escolha.
Grito porque sou poeta!
Tentando me libertar e levando quem eu conseguir com a voz rouca de tanto soltar fumaça.

A decadência reflete apenas o sangue que ainda não se coagulou.
É a prisão! A frustração trancada no sótão das casas de classe alta.

Não sou rei, não sou peão. Nem cavalo e muito menos bispo!
Estou chocado neste jogo de tabuleiros.
Estou aqui quebrando peças enquanto me julgam de louco, tentam me medicar, chamam de patologia meus devaneios.

Grito porque anseio, e carrego no profundo do seio da amante,
Nas olheiras e nas letras adiante, o fogo tenro que aquece o peito.

Eu grito porque sou artista, e não tenho escolha.
Grito porque sou poeta!
Tentando me libertar e levando quem eu conseguir com a voz rouca.