quarta-feira, 25 de março de 2015

À Simbiose

Dessimbiotise-se 
Pois nós todos somos irmãos e irmãs
Mas ninguém disse que precisamos ser
Gêmeos siameses
Encarar a rua sozinho me ensinou:
A vida, na vida, se conquista
O apoio é necessário
Mas sem membros auxiliares
Voo melhor que as gaivotas
À ponto de me tornar
Urubu rei de mim mesmo

segunda-feira, 23 de março de 2015

Ode às Vísceras

Sou vísceras e reconheço as deformidades de meu corpo
Cicatrizes, gorduras e estrias,
Idiossincrasias de minha carne
Pelos, encravados ou não, em minha superfície.

Sou vísceras e reconheço meus vícios
Minha gula por alimentos e fluídos inóspitos ao estômago em maltrato,
A fumaça que violenta meus pulmões ao meu bel prazer,
Os chicotes que adentram as narinas, entorpecendo e ferindo a respiração,
A língua que dá contra dos dentes e tanto produz o prazer do ósculo
Como a violência da fofoca.

Sou vísceras e compreendo de antemão
Minha porra, minhas lágrimas,
Meu suor e minha diarreia,
O ácido vômito que se desloca
Na possível languidez do corpo.

Sangue que escorre, adrenalina que corre,
Unhas encravadas, dedinho do pé batendo na quina da vida.
Tatuagens na pele assimétrica, visíveis ou não, marcam o ser.
Sou minha rola, minha buceta, em todos seus fluídos.

Sou o corte da gilete no rosto de uma barba malfeita,
Bolhas e feridas nos dedos de tocar violão,
Delicadeza de olhar constrangido ao encarar o disparar
Da velocidade de dentro, nesta bomba-coração.
Pelos pelos arrepiados, pelas bolhas nos pés da caminhada,
Pelo cabelo cortado e cílios que afagam as lágrimas,
Pelas sobrancelhas e lábios mordidos de desejo,
Canto com cada órgão do corpo que busca sem órgãos.

Aceito: Minhas vísceras são poesia.
Não existe maniqueísmo na carne,
A beleza está nelas – as vísceras – e além delas,
No além humano de ser.

Sou vísceras e vou além da carne,
Conexões em todas as direções
No rompante mutante de ser
Na caça às intensidades e imensidões,
E às vezes sou fascista sem querer.

Infinitamente para dentro
Infinitamente para fora
Sou corpo, e além do corpo, também sou,
Pés-raízes, cabeça-pássaro sou,
Para além das vísceras,
E mergulhando nelas,
Eu vou.


segunda-feira, 2 de março de 2015

Encanto no Canto do Peito

Teu coração não é tua fraqueza
É tua força insondável
Tua impetuosa fortaleza
Que lhe protege contra invasões indesejáveis

Teu coração é tua fonte inesgotável de luz
É teu calor intenso que transforma as trevas
Em brilho impetuoso
Em arco íris, em flor de Liz

Teu coração é tambor com vibrações poderosas
Afine seu instrumento
E venha tocar melodias
Que se harmonizam com o sopro de tua voz

Deixa teu coração ir além
Que descobrirás que ele sabe viajar
E buscar todas as alegrias já vividas
Dentro de si

Teu coração sabe amar
Sabe aonde é o mar
Deixa ele nadar
Que nas ondas encontrarás solução

Teu coração é fogueira que sabe queimar
E tornar fumaça os sórdidos sentimentos
Para que possam se transmutar
E retornar ao nosso cosmos imenso

Teu coração sabe
Teu coração canta
Teu coração dança
Basta ouvi-lo

E saberás que ele encanta

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

No Horizonte Encontrei os Pássaros Mais Belos

Partimos
Em direção ao infinito que nos assola
Pois a estrada tudo cura
E esvaziamos nossas sacolas

Meu coração em seu rompante mutante
Clama por se rearranjar
Em outros acordes
E os nós das cordas
Já sufoca,
Não edifica as tranças
Embaraça o cocar

Às vezes a gente na sabe aonde quer estar
É melhor não estar em nenhum lugar
E, numa graça nômade, ser-revirar
Revirar-se do avesso
De dentro para fora
De fora para dentro

E neste desinvento
Encontrar este pulso irremediável,
A vibração insondável
Que nos coloca em movimento

Em direção ao mar
Em direção ao infinito
Em direção que for

Não existem despedidas nessa vida
Não existe clamor mais áspero que a despedida
Existem encontros,
Existem reencontros
E existe a harmonia dos momentos...

No devaneio deste vale de utopias
Não lamento, não desmorono,
Mas construo castelos com sinfonias
Encima das ondas mais belas
Que se desfazem ao vento
E acarinham as faces de forma singela

Com a calma que me edifica
A leveza que me impera
Ao ver que a vida é deixar voar

Voa em direção as estrelas
Que o infinito está nas garras da ave mais ousada
Voa em direção aos céus
Que a estrada só chega ao fim
Quando se deseja que se chegue

Voa

Pois é só o começo
E o mundo é muito pouco
Para quem tem pernas para voar

No meio de cada fim...

No meio de cada fim
Encontro o começo de cada meio
Parece devaneio
Mas cheguei a sutil conclusão
De que é melhor viver as coisas
Por inteiro

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O Poeta Covarde (Parem de Escrever Poesia!)

As vezes sou um poeta covarde
Poeta com areia nos olhos,
Ofuscado pela intensidade
Cada emoção e acontecimento que arde
Rompendo em mim todos os poros

É preciso ter muita coragem para viver essa vida
Ousadia e audácia para agarra-la
E mordê-la como um fruto suculento
E apreciá-la intensamente dentro de seu alento
Porém, às vezes, prefiro escrever poesia

É preciso matar um dragão por dia
E atingir nos céus as glórias de vencer angústias e medos
Parem de escrever poesia!
Vamos caminhar por este caminho por inteiro
Guerrear na batalha, brandir as espadas,
Chegar ao desfecho das coisas através desta ousadia

Parem de escrever poesia!
Pois cada palavra é um direcionamento,
Uma aposta, um dispêndio de energia,
Vibração de vida que não volta
E oportunidades não voltam no tempo

Viva o dia como um grande dia!
E respire a poesia deste belo presente
Pois quando parei de escrever
Deleitei-me do amor de cada falange
Que rompe muralhas com o calor do Sol poente


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Ode à Assisterdã

Eu sou guerreiro da luz
Lutando contra as próprias trevas
E sou mundrungagem intensa
Nos voos e nas quedas

Pois em Assisterdã vivi, e sei da transmutação
Lá pequeno menino fui
Dentro de cada tijolo que lá dentro rui
Até virar um meninão

Lá naveguei nas mais intensas tempestades
E muito, como bardo, cantei
Junto de diversos músicos de e suas raridades
Compus harmonias que jamais lembrarei

Lá todomundo joga as coisas pra cima
Bate a cabeça contra a quina
E sai por aí a cantar
Prazeres de curta e de longa vida

Lá, Assisterlar!
Casa de viajantes destemidos
De Mundrungos remoídos
Aonde as paredes estão a gritar

Assisterjam! Instrumentos na sala
Assisterdã! Em todas suas palas
Os dois lados da moeda
Em uma só casa

Pois é estando dos dois lados
No mesmo lugar
Que aprendi que dá pra voar
Sentado no chão

Assisterdã,
Irmãos e irmãs,

Gratidão!