sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Abismo

Poderia chover
Poderia chover
Poderia chover
Poderia chover
Até que o inferno todo
Ficasse molhado

Poderia chover
Até que a eutanásia
Chegasse a todos moribundos
Até que a mão que afaga
Chegasse a todos desconsolados

Para me afogar
Junto a tudo aquilo
Que apedreja
Num oasis no meio do deserto
Pois sou o abismo de mim mesmo

Poderia chover
Até que minha alma
Banhada de suor e desejo
Esperasse apenas sua pele
E que as gotas a tocassem
Num carinho de garoa

Pois entre eu e mim
Existe um penhasco
Que atravesso todos os dias
À altura do desejo e da dor


Trapezista entre eu e mim

Criação conjunta de Renê Echeverria e Carla Teixeira

Oriundo Celeste

E dos poemas mais belos
Dos versos inversos
Encontro olhos e sorrisos
Que tornam os pés leves

E as fluídas pulsações
Já não afogam
Mas sim devoram o mundo
Com o brio e ímpeto do Sol!

Meu amor é oriundo de tudo que voa.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Mãos

Mãos encantam por potência de ação.
Na contra-mão encontro alguma razão.
Nas mãos encontro delicadezas,
Calos, cicatrizes de diversas naturezas,
Unhas roídas, polidas, quebradas ou não.

Mãos no céu sentem o vento
Pés no chão – as vezes – para o coração.
Mãos dadas, ciranda, cirandão – vamos todos cirandar -
Quero todas mãos e corpos e pelos fora do vão.

Me dê a mão para que possamos decifrar, desafiar,
Essas linhas infinitas, essas veias rotas
Que se expandem ou varizes,
Que acariciam e apedrejam
Que destroem e fazem construção.

Mãos em mãos, quanto mais melhor.
Mãos fazem de tudo

Só não fazem e vão.

Acidentes na Selva de Concreto

As vezes calor e vivacidade,
Carnes flamejantes,
Copos transbordantes
E diálogos-epopéias.

As vezes dias ranzinzas .
Amanheço perdendo dentes
Na cidade dos acidentes
Os prédios gritam tons de cinza.

Volta e meia, ameno amanhece
Sol radiante de queimar os poros
Dizem dia limpo,
Digo que dependem dos olhos.

Se meus óculos escuros captassem
Todo calor do asfalto
E a dor dos vagabundos
Que capengam tragos

Eu olharia num lampejo
A poesia das frutas podres
Que caíram das caixas
Na feira da cidade.

Como estas lentes não são máquinas fotográficas
Eu tento compreender
Obstinado
Corte por corte,
Como pintor, traço por traço,
Os enleios
Desta selva de concreto
No mundo inteiro,

Dentro de mim.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Malabarista Brasileiro

Eu olho pra cima,
Eu jogo tudo pra cima
E vejo tudo cair.
Eu pego,
E solto
E corro
E vôo
E vejo tudo de novo!

Eu olho o palhaço e o vejo sorrir.
Porque malabares é feito pra cair.
Na humildade de se abaixar e pegar e levantar,
E Malabarista é feito pra voar!

Reconhecer a queda de sempre e de nunca.
Belo é aquele que não tem medo do ridículo,
E ridículos somos todos nós.
Ridículo é quem não joga pra cima,
Como tantos brasileiros, poetas e poetisas!

Porque ridículos somos todos nós
E a queda é artifício,
É ofício de existir
Que faz o riso contestar da vergonha
E põe sorriso até na cara de ouriço
E de cegonha

Para que a plateia clame com graça
Quando o nariz vermelho brilhar
Na esquina do acaso
Em cada semáforo, em cada praça
Um colorido abraço.




Dedicado à poetisa da selva de pedra,

a malabarista que me ensinou a malabarear
Dany La Chérie

Cai o Pano

Fim de ano
Cai o pano
A peça continua
Os personagens encantam.

Fim de ano, Hermano!
E tudo se esvai,
Como os ponteiros batendo,
A poeira correndo,
E eu aqui existindo
Em tantos tempos contra-tempos,

Se a roda do ano pudesse dizer
Em quantos dias vivi
E quantos dias nem cheguei a ser
Ela beijaria meus lábios tácitos
Dizendo: Tudo bem poeta,
Pode crer.

Pode ser,
Porque de um mês passam-se anos
De um dia, meses
E eu não me engano
Quando o relógio diz pra parar

Eu digo: Me encanto!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Ao tirar os óculos escuros...

Ao tirar os óculos escuros,
Ao escutar sem fones de ouvido
Observo o Sol que dança
E percebo que plenitude, completude,
Não tem nada a ver
Com as duas metades da laranja.

Vejo em eu meu, meu eu
- Que as vezes nem é tão eu -
E chego a conclusão de que pleno
É quem escuta o coração.

E a ideia de ser pleno
Não estava perdida,
Ela estava aqui dentro
Lutando contra a monotonia

E eu sou inteiro,
Não preciso de metade.
Eu sou inteiro
E sou infinito.
Pois por ser inteiro,
Vejo o mundo como multidão,
Multidão em grito
Que se torna um só.

Eu sou inteiro grito,
Pois estou apto a absorver tantas vozes
Como o infinito...

Sou grito e agrego
Todas as vozes do mundo
Dentro do bater em meu peito.
Ser inteiro é ser grito

Caotico em belo devaneio.

Dedicado à Tássia Corrêa