segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Mãos

Mãos encantam por potência de ação.
Na contra-mão encontro alguma razão.
Nas mãos encontro delicadezas,
Calos, cicatrizes de diversas naturezas,
Unhas roídas, polidas, quebradas ou não.

Mãos no céu sentem o vento
Pés no chão – as vezes – para o coração.
Mãos dadas, ciranda, cirandão – vamos todos cirandar -
Quero todas mãos e corpos e pelos fora do vão.

Me dê a mão para que possamos decifrar, desafiar,
Essas linhas infinitas, essas veias rotas
Que se expandem ou varizes,
Que acariciam e apedrejam
Que destroem e fazem construção.

Mãos em mãos, quanto mais melhor.
Mãos fazem de tudo

Só não fazem e vão.

Acidentes na Selva de Concreto

As vezes calor e vivacidade,
Carnes flamejantes,
Copos transbordantes
E diálogos-epopéias.

As vezes dias ranzinzas .
Amanheço perdendo dentes
Na cidade dos acidentes
Os prédios gritam tons de cinza.

Volta e meia, ameno amanhece
Sol radiante de queimar os poros
Dizem dia limpo,
Digo que dependem dos olhos.

Se meus óculos escuros captassem
Todo calor do asfalto
E a dor dos vagabundos
Que capengam tragos

Eu olharia num lampejo
A poesia das frutas podres
Que caíram das caixas
Na feira da cidade.

Como estas lentes não são máquinas fotográficas
Eu tento compreender
Obstinado
Corte por corte,
Como pintor, traço por traço,
Os enleios
Desta selva de concreto
No mundo inteiro,

Dentro de mim.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Malabarista Brasileiro

Eu olho pra cima,
Eu jogo tudo pra cima
E vejo tudo cair.
Eu pego,
E solto
E corro
E vôo
E vejo tudo de novo!

Eu olho o palhaço e o vejo sorrir.
Porque malabares é feito pra cair.
Na humildade de se abaixar e pegar e levantar,
E Malabarista é feito pra voar!

Reconhecer a queda de sempre e de nunca.
Belo é aquele que não tem medo do ridículo,
E ridículos somos todos nós.
Ridículo é quem não joga pra cima,
Como tantos brasileiros, poetas e poetisas!

Porque ridículos somos todos nós
E a queda é artifício,
É ofício de existir
Que faz o riso contestar da vergonha
E põe sorriso até na cara de ouriço
E de cegonha

Para que a plateia clame com graça
Quando o nariz vermelho brilhar
Na esquina do acaso
Em cada semáforo, em cada praça
Um colorido abraço.




Dedicado à poetisa da selva de pedra,

a malabarista que me ensinou a malabarear
Dany La Chérie

Cai o Pano

Fim de ano
Cai o pano
A peça continua
Os personagens encantam.

Fim de ano, Hermano!
E tudo se esvai,
Como os ponteiros batendo,
A poeira correndo,
E eu aqui existindo
Em tantos tempos contra-tempos,

Se a roda do ano pudesse dizer
Em quantos dias vivi
E quantos dias nem cheguei a ser
Ela beijaria meus lábios tácitos
Dizendo: Tudo bem poeta,
Pode crer.

Pode ser,
Porque de um mês passam-se anos
De um dia, meses
E eu não me engano
Quando o relógio diz pra parar

Eu digo: Me encanto!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Ao tirar os óculos escuros...

Ao tirar os óculos escuros,
Ao escutar sem fones de ouvido
Observo o Sol que dança
E percebo que plenitude, completude,
Não tem nada a ver
Com as duas metades da laranja.

Vejo em eu meu, meu eu
- Que as vezes nem é tão eu -
E chego a conclusão de que pleno
É quem escuta o coração.

E a ideia de ser pleno
Não estava perdida,
Ela estava aqui dentro
Lutando contra a monotonia

E eu sou inteiro,
Não preciso de metade.
Eu sou inteiro
E sou infinito.
Pois por ser inteiro,
Vejo o mundo como multidão,
Multidão em grito
Que se torna um só.

Eu sou inteiro grito,
Pois estou apto a absorver tantas vozes
Como o infinito...

Sou grito e agrego
Todas as vozes do mundo
Dentro do bater em meu peito.
Ser inteiro é ser grito

Caotico em belo devaneio.

Dedicado à Tássia Corrêa

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Maré de Ser

Jogar teus pesares no mar
E ver amanhecer uma nova perspectiva.
Coragem para olhar ao horizonte.
Amor para existir.
Navegar é preciso...
E não se trata de bússolas de precisão...


... O preciso não é tão precioso,
Não há aventura de antemão.
Nado as vezes nada,
Nado as vezes em mares de solidão.

Quero ser gota no meio do mar,
No profundo do mundo.
Quero ser rascunho rústico de obra de arte sem fim,
Poesia de amor para todas musas e musos.

Para isso é preciso se afogar,
Naufragar com o navio inteiro
E sobreviver.
Despontar na guinada de uma praia deserta,
Desvendar novas terras,
Num novo mundo que engolirei,
Que irá me engolir...

Navegar é preciso,
Existir impreciso.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Outono

É preciso podar a si mesmo,
Arrancar pedaços e deixa-los na estrada.
É preciso que a ferida cicatrize,
Caindo-se as cascas.

Que caiam os pedaços podres do eu,
Pois estes já não servem.
Para sobreviver ao inverno
É preciso encarnar a planta seca
E deixar que o resto se desfaça no solo.

Para resistir a ventania
É preciso desapegar-se de si.
Uma árvore de outono não está desprotegida,
Está se tornando cinzas
Para renascer escarlate brilhante em chamas.

E a queda de cada pedaço irá doer agudamente.
Cada unha, dedo, mão, braço,
Todos os pelos e fios de cabelo,
Cada olho, lábio, dente, orelha,
E restará o tronco, o peito dolorido e paciente.

E na sabedoria das árvores,
Na filosofia do outono,
Florescerá uma nova poesia

Para desafiar a roda do ano!