domingo, 4 de janeiro de 2015

Meu Silêncio Também é Poesia

Vim para cuidar do teu ouvido
Num canto macio neste papel
Massageando cada canto do seu ser
Transformando em mel o que era fel

Papel encanta quando toca
Que a gente dança no mesmo lugar
E a caneta, que mesmo toda torta,
É toda musical quando beija o olhar

E cada letra que sai dos meus lábios
Pode ter um toque de harmonia
Mas, consciente, às vezes deixo de lado

Pois o meu silêncio também é poesia

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Tudo começa quando se vê com outros olhos...

Tudo começa quando se vê com outros olhos
Começa quando se quebra em dois, três, e quatro...
Começa quando se trocam os óculos
E quando ao invés de somar coisas a si, nudificamo-nos.

Tudo começa num sorriso, num desabrochar de flor.
Começa quando tem que começar
Em seu ritmo, tempo e prosa necessária,
Na velocidade certa,
Sem estourar o velocímetro
E sem causar engarrafamentos.

Tudo começa quando se cortam os cabelos
E se escreve poesia.
Começa quando os corpos se colocam em movimento
E as consciências em harmonia

Tudo começa quando as lágrimas finalmente escorrem
E quando se decide não responder violência com violência
Quando porcos espinhos se beijam, eles não se espetam.

Tudo começa quando se acorda preparado para o imprevisto
Com um sorriso no rosto e com uma sensibilidade que não derruba,
Mas edifica.

Tudo começa quando se observa um quadro e se vê além de um quadro
Quando se aprecia um pôr do Sol sem pressa.
Tudo começa quando se pode estar em silêncio
E não falando tanto que não se pode ouvir.

Tudo começa quando para,
Pois às vezes é preciso baixar a cabeça
E às vezes é preciso empinar o nariz

Tudo começa num doce acorde de violão,
Na batida coração do tambor
- Não bata em si mesmo, bata no tambor –
E não julgue a dança dos outros,
Mas dance de olhos fechados.

Tudo começa quando começa a se sentir
Começa a sentir o outro
E perceber que o amor,
Que por muitas vezes é tido como algo sexual,
É na verdade algo incondicional.

Começa quando se vê pessoas andando nas ruas,
Não objetos, máquinas.
Começa quando se sorri para um artista de rua
E coloca umas moedas no chapéu em troca deste sorriso no meio da metrópole.

Tudo começa se sente no peito
E quando o querer fazer
Simplesmente se torna em ser.

Tudo começa no amor de pai, de mãe, de irmão e de amante.
Tudo começa quando a alma não é pequena
E quando os abraços são maiores que as espadas

Tudo começa no amor

Pois é aonde tudo começou.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Paciência, Noite e Dia

Desejos que se implicam em pesos
Fardos que caem sobre o eu como bigornas invisíveis
Acreditar que se possui asas é possível
Mas não aquelas que estão nas vitrines

Pois um corpo pode ser uma escultura
Mas que seja uma cultura do corpo
E não uma pintura medíocre
Num outdoor num cais, no porto

As coisas são como são
Elas se transmutam lentamente
E a velocidade cabe num pequeno passo
Que é o primeiro a se iniciar
E o mais desengonçado e displicente.

Na sola dos primeiros pés
Nos joelhos do primeiro engatinhar
Posso primeiro parar o autoflagelo dos chicotes
Para depois aprender a me acarinhar

E quando quero tudo na velocidade de uma metrópole
Paro e penso que o Sol e a Lua são pacientes
Mantém sempre o ritmo
E chegam ao destino
Para começar de novo.

Eu Sol Lua paciente
Mantenho a dança no ritmo
Desembarco na estação da transmutação
Para que possa haver noite e dia

Dentro de meu coração.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Poesia

Se meu canto saísse em letras
Eu não leria
Apenas esparramaria na parede mais pública
Mais próxima
Mais oposta à parede inóspita
Só para deixar um suspiro de poesia
Nessa terra cinza

Pois sei que há
Uma colorida harmonia
Dentro de cada ser que
Com coragem e ousadia
Constrói sua existência

Como obra de arte contínua
Exala e grita
Através do concreto e do caos...

Quando um poeta grita
Ninguém escuta
Quando um poeta morre
Ele é cult
Mas quando o poeta é...

Ser transpõe tudo que é belo nesse mundo
E a obra de arte

É a existência.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

De Olhos Abertos

Dance no chão comigo
Sejamos vencidos pela gravidade
E nesta derrota em bandeira branca
No berço da terra tentarei enterrar minha vaidade

Fecho os olhos

E enquanto rolamos adiante nas campinas equidistantes
Olho no céu teus olhares de oceano
Azul como o pano de minha calça e o pranto de minha náusea
Mergulho dentro destas janelas com desejos e liames

Nas águas profundas da musa
Desvendo Atlântidas e os desafios de sua semântica
Para dentro do enigma encontrar
Este perfume maior que me busca

Que desafia do olfato ao paladar
Para ao poeta enfeitiçar
Dentro dos tímpanos escancarar
E no samba do coração ao palpitar

Mas quando voltei a mim e abri os olhos
Encontrei teu rosto esculpido em forma de sorriso
E desejei que estivesse de olhos abertos

O tempo todo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Oceano dentro de uma gota

Quando pensei em procurar um amor
Veio dentro de mim uma angústia escandalosa
Análoga a intensidade de uma tranca ferrosa
Que exclamava quando de dentro exalava este ardor

Quando procurei o amor
Trepei no jardim, na escada, no bosque da faculdade,
No banheiro público do parque,
Bebi em inúmeros bares
Doses dadas e vendidas
Em diversos limiares

Bebi com damas fatais,
Homens charmosos e sensuais,
Donzelas tímidas
E senhores e senhoras de mil carnavais

Quando decidi buscar o amor
Virei a mesa e quebrei garrafas e copos
Cortei os pulsos e escrevi mil cartas de suicídio
Dei tiros nos espelhos e nos pássaros

Quando busquei desesperadamente o amor
Caí com a boca na sarjeta
Persegui a sombra de minha própria silhueta
Engasguei com minhas próprias labaredas

E aí então percebi,
Depois de mártir eu não quis ser faquir
Pois não encontrarei o que busco no vasto mundo
Se não dentro desta gota que habito
O amor que procuro está dentro deste oceano vivo.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Flores Ser!

Chegada a primavera
Após os tempos de caverna
É momento de flores – ser
De flores-dar e receber

Equilibra-se a Deusa Terra,
Ela, Donzela graciosa, Mãe amorosa e sábia Anciã,
Observa grata
Enquanto movimentos coloridos brotam em seu jardim.
São seus filhos e filhas dançando com as borboletas e ninfas
Numa brincadeira sem fim.

Hoje já não sou a Ironia Decadente
Pois todo luto deve acabar.
Todo caixão deve retornar a sua origem
E toda dor deve ser perdoada para que a estrada se siga em frente

E jamais chorarei ao Sol poente,
A noite integra cada indivíduo
Mas a luz dentro do peito contente
Toma as rédeas neste momento rico.

Gratidão pela Coragem de Saltimbanco que floresce em meu peito
A aura luminosa que envolve meu coração
Pois, com meu nariz vermelho ou não,
Se existe algo que eu não possa desapegar nessa vida

É desse sorriso bobo e brincante de meninão!