domingo, 12 de maio de 2013

Fome de Mundo


Eu sou um bicho.
Sou bicho-homem,
Bicho-mulher,

Sou bicho-hermafrodita
Eu sou bicha!
Sou bicho e bichete,
Veterano e veterana.
Predador e presa
Nas trilhas e estradas
Numa constante fome insana.

Eu sou um bicho que ama
Além da roupa, da maquiagem,
Da pele e do corpo!

E nada vai que me dizer,
Vai me declarar
Como bicho morto.

Viverei na memória,
Retornarei ao solo da natureza.
Como bicho orgânico desorganizado que sou.

Sou bicho de pano em um nó amarrado,
Torcendo e retorcendo
Retardado em cada divino dilatar de pupilas
Que ocupa o espaço.

Sou bicho como todos os bichos.
Sou bicho como nenhum bicho.
Buscando aonde há beijos,
Aonde há braços,
Aonde há calafrios e espasmos.
Sou bicho motor, movido e movimentado
Pela fome de mundo.

Pernas para Voar

Longe da estante pareço tão maior
Perto de todos os estandartes de concreto
Eu olhava o horizonte de pés abertos.

A dor do fardo em minhas costas
Era a do parto de asas de piche
E os pés rodando em pneus carecas sob-rodas.

O horizonte encoberto
De edifícios austeros
Assemelhava-se a moldura de uma janela quebrada.
Mas fitar o horizonte é pouco, muito pouco,
Para quem tem pernas para voar.

Eu queria colocar meu pé na estrada,
Meu dedo na terra,
Girar o mapa-mundi para apontar
Aonde irá pisar minha bota furada.

Mas meu armário estava cheio de animais
Que meus pais me ensinaram a cuidar.
E minha paz se encontrava
Num colchão de molas, assistindo na Tv
O dançar de mais uma pop estar
Que todo mundo vê.

Mas o que ninguém vê
São os pássaros de asas podadas em gaiolas de tijolo e argamassa
Cantando para alguém abrir a porta.

Até que um dos pássaros enxergar com o bico
E com o brio gritar contra o vidro.
E no breu de um brio a abriu.
Um pássaro fugiu.

- Eu quero o baque-solto da vida.
Quero ser bicicleta sozinha e sem guias.
O que acontecerá se um
Pássaro aprender a abrir a gaiola?

Pois tem muito mundo
Por detrás dos portões,
Dos condomínios, das favelas, casas-prisões.

E o artista é o pássaro
Tangindo o mundo invisível.
Para inspirar em toda essa gente
O possível impossível!

sábado, 5 de janeiro de 2013

GRU.T.A Marginal


Uma cavidade que abriga uma coxia enxuta
Que procura e procura e procura
Romper com as coisas nulas.

Provocar nas faces mudas
O sentimento revoltante
Do prazer do horizonte
Na luz cura e nua.

Andarilhos sortidos nos cursos perdidos,
São todos tão bem vindos
Como ideias de um poema a começar.

Estamos todos, e tudo, em voga para estar.
Poema caminhante que, aprendendo a engatinhar,
Possui dentro de si a dádiva de um espaço.

Um lugar para ser e estar.
Um espaço para ocupar,
Para dividir,
Para cultivar.

Soltar o corpo no chão,
Olhos chorando, palpitando música
Em momentos transcendentais
Dos murmúrios do tempo que passa.

Risos transpirantes, ofegantes
Em fôlegos virando pássaros,
Virando brasa
No jogar.

“Gruta”, por que escavamos.
Por que procuramos na profundeza
E no sólido do solo
Um minério raro.

Porque das estalagmites do peito,
Da acústica da boca;
Das estalagnites do céu
Do corpo cansado e da voz rouca
Nasce nosso ouro.

Gruta que escavamos no peito
Para encontrar o que há de precioso.
Com a ferramenta rústica do anseio
Para preencher o meio
E o prazer,
De existir e de viver.


“Gruta” por que
Não queremos vencer!
Mas sim, escavar este tesouro.
Pois queremos tirar do escuro
Todo potencial vivo
De todo belo e explícito corpo!

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Tatuagens do Escarlate

A poesia do teu corpo esculpida de sangue escorrido
Esconde e também põe em palco os passos de pegadas do tempo.
A pele-tela mostra riscos, erros, dádivas que brilham
Tímidas por baixo do breu vivo no alento.

Uma sinfonia do passado num grito
Que foge da pele e talha o calor
De existir como tatuagem,
Sem querer, no brio,
Marca no íntimo uma deformidade excêntrica de fulgor.

Pedaço meu que tomou viagem
Num bege simples e embranquecido.
Carrega, navegante em toda margem
O prado lacônico do fato jamais esquecido.

Obra de arte, retrato parvo ou grande vergonha
Para se esconder sob os véus da indumentária.
Estória escrita depois da cegonha
Para marcar no corpo, na agulha de existir
Nesta viva tecelagem.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Um Brado Doentio


O palor percorre ruas sozinhas no meio da chuva,
Na solidão ébria do poeta em sua agonia desproporcional.
O exaurir, o sangue de seu susto em sussurro de madrugada
São posturas prolíficas, cacos de vidro guerreando no brio da espada.

A faísca parva das espadas é a lágrima que trinca a máscara do rosto,
É o conteúdo do gosto amargo da raiz que busca outra prata.
O garimpo em cada degrau rachado da escada
É a busca do precioso vômito caindo do corpo tosco.

Uma gota de sangue por um pedaço do bolo do absorto.
“Feliz aniversário” escrito na cobertura
Que escorre derretendo em chamas.

O brado marca a alegria da digestão do dia-a-dia.
A indigestão misericordiosa pela sanidade do corpo
Vomita indômitas poesias.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Gaiola de Diamantes


Guarde-a numa gaiola de diamantes e fique a observando voar sozinha,
Sentada como traça, no banco da mesma praça,
Olhando para você com olhar de pena
Quando você chega em casa.

Coloque-a no seu quarto e a tire para cantar de vez em quando.
Deixe-a bailar sob as quatro paredes do universo,
Cante uma melodia bonita, lírica e convincente,
Fazendo papel de galã de novela,
Deixando manchas nas costelas.

Depois a coloque de volta.
Alimente-a bem,
Mas não muito, para que ela não fique mal acostumada
- Toda cautela é necessária para que ela não invada a casa -.
Sempre traga sementes de boa qualidade, grãos simpáticos e algumas drogas.
E assista a flor murchar,
Veja-a morrer...
Ou fugir de sua gaiola.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O Legado do Poeta


Aos artistas, aos poetas deixo minha poesia.
Meu legado num lago inconstante e anônimo
Que deságua aonde amanhece o dia:
No berço trágico do Sol recôndito.

Deixo meus pedaços de vida
Por onde encontrei guinadas e sentido.
Meu terço de calor, caos e harmonia
E berço tranquilo para todos  os gritos.

Nos papéis rasgados, nos cadernos queimados e nos livros envelhecidos
Estórias em gotas absortas e ignotas
Com asas em frases e estrofes de tinta escarlate que cantam mitos.

Mitos de nós que existimos num brio dilacerado
Dançando na crina de linhas tortas
O amor vil de existir num pequeno trago.