terça-feira, 16 de outubro de 2012

Implosão


Implosão!
É tanto pulso batendo em percussão.
Batendo no peito-tambor sem dó,
Se espalhando pelo corpo, gritando inspiração,
Respiração, transpiração, vocalização
Em acordes opioides de uma alucinação em do.

E que dó doía, querendo sair como
Fumaça dentro dum incêndio numa carvoaria.
Numa casa fechada, o desespero, a ignota fala
Tremia o corpo em agonia.

O corpo grita! O corpo grita!
A mão vazia vai sozinha em direção à caneta, ao papel.
O corpo dança, na música que não existe,
A vida branda que pulsa e clama o gozo
De construir alucinação viva que é a arte.

O orgasmo louco!
O êxtase dionisíaco que faz nascer do humano,
Do corpo, no palco, na plateia e no asfalto,
A face do absorto,
O estado de artista: de estar no alto!
O momento de simbiose e epifania
No qual a arte se torna o artista.

Momento no qual se alinha uma harmonia
Num anterior estado de inquietude, de adrenalina e ansiedade,
De sofrimento que parece um parto no asfalto,
Em direção ao palco, ao êxtase no alto,
Mais alto que qualquer orgasmo.
Implosão!

Necessidade nossa de expor as vísceras
Para não enlouquecer por aqui
- Ou talvez enlouquecer com o que está por vir –
Mas criar, produzir,
Ser artista é realmente um bom motivo para existir.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Necrofilia de um Pedaço de Vida


No que está dito - pelo corpo, pela alma e pela voz - há algo de hipócrita conjecturando no fato. Se o real é tão temeroso, o medo, a ilusão é mais forte que a própria racionalidade. No que há de dito, há pedaços do real e restos de ilusão sórdida...

As gotas caiam na chuva sólida
E cada pedaço quebrava as telhas do telhado
Defasado pelas mesmas tempestades.
Chegavam e voavam como abutres sob a carne podre
E riam nas gargantas necrófilas ao arder da carne.

Pequenos pedaços negros de um coração celeste.
A chuva ácida ardia, mas ninguém ousava usar um guarda-chuva.
Foi decretado que tudo haveria de haver à flor da pele
E todos ardiam em conjunto ao caos da terra.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Mais Uma Dose


(...) E os bares são aqueles lugares
De criaturas com ares
De lembrar e esquecer o que é ser...

Bate forte no peito aquele doce anseio
Que me trazia o olhar e o beijo
Daquela mulher de vermelho..

Batia na minha cabeça estagnada,
Fazendo-a girar um tanto.
O deleite de me embriagar com teu beijo
E nadar nos mares macios de teu corpo.

De acordar no marfim de teus braços,
No teu riso sem fim,
Fez de meu anseio trêmulo recompensado,
Acalentou o peito desesperado enfim.

Uma dose de amor, de uma bebida quente e pesada,
Me fez leve em segundos.
Viajando pelo meu corpo
Causando risos de acelerado batimento cardíaco.

E que num tino de medo
Expeliu-se por inteiro
Num gorfo derradeiro...
O que era belo agora queimava em ácido e restos...

Hoje queima ao lado,
Pedaço por pedaço,
De uma miscelânea de romances abortados,
De uma biblioteca de boêmios solitários,
Numa lareira em meu quarto
Para aquecer meu corpo tenso
Neste inverno que não chega ao fim...

“Mais uma dose? É claro que eu tô afim...”

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O Soneto da Granada


Olhe para esta insignificante bomba.
Ela irá explodir em alguns minutos.
Ela não se importa em ser granada jogada,
Sem um anel qualquer para segurar sua faísca famigerada.

Estava sozinha num canto escuro ao lado da barricada.
Nenhum dos soldados a viu ou ouviu.
Nenhum dos soldados gritou ou insurgiu.
Todos se renderam a uma granada qualquer.

O minúsculo crepúsculo em potencial
Que queimou todas as existências ao seu redor.
Um fragmento de tecnologia, sem boca, sem olhos,
Engolindo todas aquelas vidas com dentes em chamas.

Ela não queria, nem devia, mas era o que era.
Uma pequena granada na face da Terra.
O potencial era de matar o presidente tanto quanto o soldado raso.

Ela não queria, mas era o que era.
Eram todos pequenos pedaços, menores do que ela.
Ela explodiu queimou tudo o que um dia era
[nessa nova velha era.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Brasa


Era tudo e nada.
Um paradoxo infame,
Infante, juvenil e senil,
A ponto de bala,
A ponto de explodir a casa.
Cada pedaço de madeira era como uma farsa.

Era tudo e nada.
E o cinzeiro gritava na fumaça.
Coisas de vidro quebrado
E de vinho tinto na taça...

Era tudo e nada
Como o pranto na praça.
Como o bêbado alegre em sua feliz lástima.
Como o junkie na picada de agulha
No agudo da dor instante que passa.

Era tudo e nada
E ele olhava para o chão de paralelepípedo de graça...

Era tudo?
Era nada?
Era só ferro em brasa.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

As Flores de Julho


E os prantos e os tantos trancos dos barrancos
Atacavam as retinas, entravam por todas as vias
Num viés de artilharia.
Eu olhava para o vento do inverno que enfeitava minha face...
O rosto retorcia.

Um cigarro na varanda, as estrelas me encarando.
Eu olhava a epopeia de você.
Um beijo de nicotina na madrugada fria
E minha cicatriz gigante de agonia...

A garrafa me batia e eu bradava aos céus;
Gritos-fumaça passando pelos véus,
Um riso-lágrima de solidão...
O toque pálido da manhã
E eu estava ali com você e sem você...
Eu acreditava nas flores de Julho que estavam a nascer...

Estavam a morrer.
E eu vendo os pedaços queimarem
E essas coisas bonitas que me habitavam fugindo à francesa.
Bebendo das águas de um oásis que partia
Das terras partidas nas areias deste deserto...


Era uma miragem do inverno dizendo que
Por um segundo, no interno pálido do peito,
E da neve,
Nasceu uma flor sozinha que olhava para o céu.

A flor sonhava ser estrela no teto,
Ornamento de papel
Para acariciar os olhos antes de dormir.

Sonhava em ser favo de mel
Para massagear a garganta boêmia
Tão lânguida e cansada de tragar do vazio.

A flor era torta e tinha a graça de um vinho envenenado.
Era triste de desesperada.
Era errada, mas existia,
Respirando com dificuldades asmáticas...

E ela morreu antes de desabrochar,
Ela morreu, pois o inverno jamais haveria
De deixar nascer uma flor sozinha
Perdida, sem Sol e sem ar.

Todos sabiam que tal flor não vingaria.
Mas ainda sim a regavam com um afeto relapso.
E ela mancava internada na UTI,
Morta-viva, zombie.

Eu acreditava que as flores de Julho iriam surgir.
No lugar errado, na hora errada...
Era um erro errante pronto para partir
E uma esperança em pedaços
Num saco de plástico de uma mala
No fundo do armário.

E as lágrimas que a regavam secaram
Antes da alvorada bela.
E as flores de Julho nunca nasceram
E nunca foram esquecidas
Por toda sua graça
Mesmo antes da primavera.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Carícia de Alicate


Somos abençoados por máquinas-escravos
Que nos escravizam.
Donos do anseio calado,
Desejos mal-abastados,
Frustrados e afogados diante de um comprimido.

Vítimas fúteis,
Tragédias gregas em queda constante
Como vidraças no chão de um asilo.

E o que há de sórdido nisso?

Eles, incontentes, criam muletas
Para produzir e reproduzir em série
Mais algumas muletas.

Receptáculos em vias,
Mecanismos para nos dar um amor de plástico,
Para que possamos dormir e acordar
Todo dia, Todo dia, Todo dia...

Os antidepressivos,
Os analgésicos da realidade,
O carinho frio do abraço-alicate da máquina.

Certa vez me perguntei por que eles estão tão sozinhos,
Levando a solidão para a cama.
Porque tão quietinhos
E tão perto da lama?
E pra que tanta solidão
Se estamos tão perto do Japão?

Estão tão próximos e tão longe de si próprios.

Tic Tac, Tic Tac!...
O ungir da engrenagem bate e rebate
Lubrificando o regime da fome sem clemência.
O olhar da lente fria,
Da câmera divina divide em série o afeto perdido
Em pequenos biscoitos baratos
A serem engolidos.

É o mercado, o mato, o pasto sem plantas.
O mito de comprar o mito e consumir o mito.
E ser o feto chupando uma placenta de flavorizantes
Diante de um bando de niilistas reai$.

E se eu amar a obra alheia?
Um pequeno retrato, uma foto de 3 por 4
É um sorriso que não existe.
Abraçar o ursinho é só um carinho de vitrine.

Estamos amando essas coisas sósias de humano.
E somos substituíveis diante dos olhos metálicos
Deste eterno oceano de fetiches.